Genética e tecnologia apontam novos caminhos para a pecuária leiteira brasileira

Avanço das avaliações genômicas, eficiência produtiva e papel das raças zebuínas estarão entre os temas do Debate Agro Leite, que reunirá lideranças do setor durante a 4ª ExpoLeite

A pecuária leiteira brasileira atravessa um momento marcado por contrastes. De um lado, o país amplia sua capacidade produtiva e incorpora tecnologias que permitem elevar a eficiência dos rebanhos. De outro, produtores convivem com margens cada vez mais estreitas, oscilações de preços, aumento dos custos de produção e pressão das importações de lácteos. Nesse cenário, genética, gestão e inovação tecnológica ganham espaço como ferramentas estratégicas para garantir competitividade e sustentabilidade à atividade.

O Brasil consolidou em 2025 sua posição como terceiro maior produtor mundial de leite. Segundo dados da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção nacional alcançou o recorde de 36,7 bilhões de litros, crescimento de 2,7% em relação ao ano anterior.

O avanço da produção ocorreu mesmo diante da redução de 2,7% no número de vacas ordenhadas, que chegou a 14,7 milhões de animais. O resultado evidencia uma mudança importante no perfil da atividade: produzir mais leite depende cada vez menos do aumento do tamanho do rebanho e mais da capacidade de produzir de forma eficiente.

A produtividade média atingiu 2.498,7 litros por vaca/ano, crescimento de 5,6%. O indicador reforça a importância de investimentos em genética, nutrição, manejo, sanidade e gestão para elevar o desempenho individual dos animais e melhorar a rentabilidade das propriedades.

Ao mesmo tempo, o produtor continua enfrentando um ambiente de negócios desafiador. O preço médio do leite pago ao produtor chegou a R$ 2,87 por litro, segundo o Cepea, mas a recuperação da remuneração não elimina a pressão exercida pelos custos de produção. Alimentação, suplementos minerais, energia, fertilizantes e demais insumos continuam pesando sobre as margens da atividade.

A situação também é influenciada pelo mercado internacional. As importações de lácteos, principalmente provenientes de países do Mercosul, como Argentina e Uruguai, permanecem no centro das discussões do setor. Para lideranças da cadeia produtiva, a entrada de produtos estrangeiros em condições consideradas desiguais compromete a competitividade da produção nacional e dificulta o planejamento dos produtores.

Para Jônadan Ma, produtor e uma das lideranças do setor leiteiro, a conjuntura exige uma mudança de postura dentro das propriedades, além de medidas capazes de proporcionar maior segurança ao produtor. Segundo ele, produzir leite atualmente exige profissionalização e uma visão empresarial da atividade.

“O setor produtivo brasileiro carece de mecanismos eficientes de previsibilidade de preços e de uma defesa comercial sólida e ativa que coíba as distorções causadas pelo dumping internacional de lácteos. O produtor precisa de estabilidade para planejar seus investimentos em tecnologia e nutrição”, afirma.

Na avaliação de Jônadan, também é necessário avançar na construção de políticas públicas voltadas à sustentabilidade econômica da cadeia leiteira. Ele alerta que a continuidade da entrada de produtos importados em condições consideradas desiguais pode comprometer a produção nacional no médio e longo prazo.

“É o momento de manifestarmos porque o Brasil é grande exportador de alimentos. Mas, sem ações efetivas do governo que deem segurança aos produtores brasileiros, em breve a falta das políticas públicas internas para proteção da nossa cadeia produtiva cobrará um preço alto”, destaca Ma.

Para o produtor, o problema não se limita ao impacto imediato sobre quem produz leite. A redução da produção nacional pode, futuramente, diminuir a concorrência no mercado interno e trazer consequências também para os consumidores.

Genética como ferramenta de eficiência

Em meio às dificuldades econômicas, o melhoramento genético se apresenta como uma das ferramentas capazes de contribuir para a evolução da produtividade e da eficiência dos sistemas leiteiros brasileiros.

Nesse processo, as raças zebuínas exercem papel estratégico, especialmente por sua capacidade de adaptação às condições tropicais. Gir Leiteiro, Guzerá e Sindi são utilizados tanto em sistemas de produção de animais puros quanto em cruzamentos que buscam combinar produtividade, rusticidade, longevidade e resistência.

“O Brasil tem na genética uma das principais ferramentas para aumentar a eficiência da produção. A grande engrenagem produtiva gira em torno das raças Girolando e Holandês, unindo o volume de produção europeu à rusticidade necessária para os trópicos”, explica Rafael Vizoná, gerente de Melhoramento Genético do Leite da ABCZ.

Segundo ele, dentro desse sistema, o Zebu tem importância decisiva por fornecer características relacionadas à adaptação ao ambiente tropical. “Raças como o Gir Leiteiro, o Guzerá e o Sindi fornecem a base de adaptabilidade ao calor, resistência a parasitas e conversão alimentar eficiente. O trabalho contínuo de seleção do Zebu converteu animais tradicionalmente rústicos em verdadeiras matrizes de alta performance, elevando os teores de gordura e proteína do leite e assegurando um alimento seguro e de altíssima qualidade no prato do consumidor”, avalia Vizoná.

A evolução genética também passou a contar com ferramentas cada vez mais precisas. Entre elas está o PMGZ Leite, programa coordenado pela ABCZ, que utiliza informações de desempenho e avaliações genéticas para orientar a seleção dos animais.

Mais recentemente, a genômica ampliou a capacidade de identificar, ainda em animais jovens, aqueles que apresentam maior potencial para determinadas características produtivas e funcionais. A tecnologia permite analisar informações do DNA e associá-las às características de interesse econômico, aumentando a precisão da seleção e reduzindo o intervalo entre gerações.

De acordo com Vizoná, a consolidação das avaliações genômicas para as raças zebuínas leiteiras representa um avanço significativo para a pecuária tropical.

A possibilidade de identificar antecipadamente animais geneticamente superiores permite direcionar os investimentos da propriedade para indivíduos com maior potencial produtivo e funcional. Na prática, isso pode significar menor permanência de animais improdutivos no rebanho, melhor utilização dos recursos disponíveis e maior velocidade no ganho genético.

A ferramenta ganha importância especialmente em um cenário no qual o produtor precisa produzir mais utilizando os mesmos recursos. Genética, entretanto, não atua de maneira isolada. O potencial dos animais precisa estar associado a condições adequadas de nutrição, manejo, sanidade e ambiente para que os resultados esperados sejam alcançados.

ExpoLeite reúne setor para discutir os próximos passos

As transformações pelas quais passa a atividade leiteira estarão no centro das discussões durante a 4ª ExpoLeite, promovida pela ABCZ entre os dias 12 e 18 de outubro, no Parque Fernando Costa, em Uberaba (MG).

Dentro da programação, o Debate Agro Leite, marcado para o dia 16, a partir das 10h, reunirá produtores, cooperativas, lideranças e representantes de diferentes segmentos da cadeia produtiva para discutir os principais desafios e oportunidades do setor.

Entre os temas que estarão em pauta estão a conjuntura do mercado, os custos de produção, a competitividade da atividade, as políticas para o setor e o papel da tecnologia e do melhoramento genético na construção de uma pecuária leiteira mais eficiente.

Jônadan Ma estará entre os participantes do encontro, levando para o debate sua visão sobre os desafios enfrentados pelo produtor e a necessidade de maior organização e profissionalização da cadeia.

A 4ª ExpoLeite terá ainda uma programação voltada à valorização das raças zebuínas leiteiras. Mais de 700 animais participarão de julgamentos, mostra e torneio leiteiro, reunindo exemplares de Gir Leiteiro, Guzerá, Sindi e Girolando.

Mais do que apresentar animais de destaque, a feira deverá funcionar como uma vitrine das ferramentas que vêm transformando a pecuária leiteira. Em um ambiente de custos elevados e forte competição, a combinação entre genética, tecnologia, gestão e adaptação às condições brasileiras passa a ser determinante para que o produtor consiga aumentar a produtividade sem perder de vista a rentabilidade da atividade.

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