Pesquisas apresentadas durante simpósio abordam o desenvolvimento de animais mais tolerantes ao calor e novas possibilidades para a reprodução assistida
O avanço da engenharia genética e das pesquisas com células-tronco abre novas perspectivas para o melhoramento genético e a reprodução de bovinos. Entre as linhas de investigação estão o desenvolvimento de animais com maior tolerância ao estresse térmico, sem perder características produtivas de interesse, e a possibilidade de utilizar células-tronco embrionárias na obtenção de gametas para a reprodução assistida. Embora as tecnologias estejam em diferentes estágios de desenvolvimento, os estudos podem ampliar as ferramentas disponíveis para enfrentar desafios da pecuária.
Os temas foram apresentados, no dia 15 de outubro, pelo pesquisador Luiz Sergio Camargo, da Embrapa, em Juiz de Fora (MG), e pela pesquisadora Anna Denicol, da Universidade da Califórnia, em Davis, nos Estados Unidos, durante o I SIMFertCorte – Simpósio Internacional de Reprodução e Fertilidade em Gado de Corte, em Campo Grande (MS).
Edição gênica busca aumentar a tolerância ao calor
O estresse térmico está entre os desafios para a produção pecuária em regiões tropicais e subtropicais. Temperaturas elevadas, associadas à umidade, podem comprometer o desempenho dos animais, afetando tanto a produtividade quanto a eficiência reprodutiva. Os impactos são especialmente relevantes em raças de origem europeia, selecionadas para características produtivas, mas geralmente mais sensíveis ao calor.
É o caso de bovinos Angus, utilizados na produção de carne, e Holandeses, especializados na produção de leite. Mesmo com elevado potencial genético, esses animais podem apresentar perdas de desempenho quando submetidos a condições ambientais desfavoráveis. O problema também não se restringe às regiões tropicais, já que áreas de clima temperado, incluindo partes do Sul do Brasil, podem registrar temperaturas elevadas durante o verão.
Segundo Luiz Sergio Camargo, o estresse térmico pode prejudicar a fertilidade, reduzir as taxas de concepção, aumentar o intervalo entre partos e comprometer a produção. Diante desse cenário, a pesquisa com edição gênica busca ampliar a capacidade de adaptação dos animais às temperaturas elevadas, preservando características produtivas já estabelecidas pelo melhoramento genético.
“É trazer um melhoramento para esses animais, fazer com que eles melhorem sua capacidade de tolerar temperaturas mais elevadas. É claro que não vão ser animais totalmente tolerantes ao calor, mas queremos aumentar essa tolerância em relação ao que apresentam atualmente”, explica o pesquisador.
A proposta é modificar características genéticas específicas que possam contribuir para uma resposta mais favorável às condições de calor. Os resultados iniciais indicaram diferenças no comportamento e na resposta térmica entre os bovinos que receberam a edição genética e aqueles que não passaram pela alteração. Os dados, contudo, ainda são preliminares e não permitem afirmar que os animais editados estejam livres dos efeitos do estresse térmico.
As próximas etapas envolvem ampliar a população fundadora, produzir a geração seguinte e realizar avaliações a campo com um número maior de animais. Esse processo será importante para verificar se as respostas observadas inicialmente se mantêm em diferentes condições e para avaliar o potencial de aplicação da tecnologia no melhoramento genético bovino.
Células-tronco e o futuro da reprodução assistida
Outra frente de pesquisa que pode transformar as ferramentas disponíveis para a pecuária envolve as células-tronco embrionárias bovinas, conhecidas pela sigla ESC, do inglês embryonic stem cells. Os avanços na obtenção e manutenção dessas células em laboratório têm permitido aprofundar os estudos sobre seu potencial de aplicação na reprodução animal.
De acordo com Anna Denicol, o desenvolvimento de células-tronco embrionárias bovinas com características adequadas para a manutenção em cultivo é relativamente recente, com avanços importantes registrados a partir de 2018. Essas células se destacam por duas propriedades: a capacidade de autorrenovação, que permite sua multiplicação e manutenção em laboratório, e a pluripotência, relacionada ao potencial de diferenciação em diferentes tipos celulares.
Essas características tornam as células-tronco uma ferramenta de interesse para a pesquisa reprodutiva. A autorrenovação permite que os pesquisadores mantenham e estudem as células ao longo do tempo, enquanto a diferenciação celular abre a possibilidade de investigar como elas podem dar origem a estruturas especializadas.
Uma das perspectivas estudadas é a chamada reprodução in vitro a partir da diferenciação de células-tronco em gametas, como óvulos e espermatozoides. Em tese, essas células poderiam ser utilizadas em técnicas de fertilização in vitro (FIV), criando novas possibilidades para a reprodução bovina.
“Outra aplicação seria o que chamamos de reprodução in vitro. Isso depende da diferenciação das células-tronco em óvulos e espermatozoides, que poderiam ser utilizados na FIV sem precisar produzir um animal”, comenta Denicol.
A pesquisadora ressalta, entretanto, que essa tecnologia ainda não está disponível para utilização em bovinos. Os resultados mais avançados nessa área foram obtidos em camundongos, enquanto diferentes grupos científicos trabalham para desenvolver metodologias que permitam alcançar resultados equivalentes em outras espécies.
O avanço depende de uma compreensão mais aprofundada dos mecanismos que orientam a diferenciação celular e a formação dos gametas. Também será necessário demonstrar que as células obtidas apresentam as características necessárias para serem utilizadas de maneira segura e eficiente nos processos reprodutivos.
Tecnologias em diferentes estágios de desenvolvimento
As pesquisas com edição gênica e células-tronco representam caminhos distintos, mas complementares, para ampliar o conhecimento sobre a genética, a adaptação ambiental e a reprodução dos bovinos. Enquanto a edição gênica busca modificar características específicas dos animais, os estudos com células-tronco investigam possibilidades de desenvolver novas ferramentas para a reprodução assistida.