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ESPE­CI­AL

Mulhe­res que, com sua for­ça,
impul­si­o­nam a 
PECUÁ­RIA LEI­TEI­RA

Há mui­tos anos, a Bal­de Bran­co des­ta­ca o tra­ba­lho da mulher na pro­du­ção lei­tei­ra, bem como sua atu­a­ção tam­bém como téc­ni­ca – zoo­tec­nis­ta, médi­ca vete­ri­ná­ria e agrô­no­ma – no papel de ori­en­tar e indi­car cami­nhos para o suces­so da ati­vi­da­de. Nes­ta edi­ção de mar­ço, mês em que se come­mo­ra, no dia 8, o Dia Inter­na­ci­o­nal da Mulher, nos­sa home­na­gem a todas que engran­de­cem a pecuá­ria lei­tei­ra com o seu tra­ba­lho fei­to com dedi­ca­ção, inte­li­gên­cia e sen­si­bi­li­da­de. Tra­ze­mos o depoi­men­to de algu­mas que estão envol­vi­das com a ati­vi­da­de e que repre­sen­tam dig­na­men­te todas as mulhe­res do agro, a come­çar pela recém-elei­ta pre­si­den­ta da SBR.

Tere­sa Cris­ti­na Ven­dra­mi­ni

Pecuarista e socióloga, sendo produtora na fazenda em Flórida Paulista, interior de São Paulo. É a primeira mulher eleita para a presidência da Sociedade Rural Brasileira (SRB), nos 100 anos da entidade

Nasci em Ada­man­ti­na, no inte­ri­or de São Pau­lo, e faço par­te da ter­cei­ra gera­ção na minha famí­lia de pro­du­to­res rurais. Esta­mos no agro há 80 anos. Minha tra­je­tó­ria foi de mui­to apren­di­za­do, pro­cu­rei aju­da na Embra­pa e outras ins­ti­tui­ções para desen­vol­ver a capa­ci­ta­ção que hoje tenho em gené­ti­ca, tec­no­lo­gia, ges­tão, sani­da­de e bem-estar ani­mal. 

A fal­ta de conhe­ci­men­to no iní­cio do meu tra­ba­lho em uma fazen­da de pecuá­ria foi um gran­de desa­fio e sem­pre pro­cu­rei aju­da para supe­rá-lo. Tive aju­da de um agrô­no­mo e de um vete­ri­ná­rio que estão comi­go há mais de dez anos. Acre­di­to que só con­se­gui­mos ven­cer esses obs­tá­cu­los com apren­di­za­do e nos reci­clan­do. 

Os desa­fi­os para as mulhe­res no agro são mai­o­res do que para os homens. Em minhas via­gens pelo Bra­sil, ouço mui­tos rela­tos de mulhe­res que ain­da encon­tram mui­tos obs­tá­cu­los para exer­cer suas ati­vi­da­des. Isso acon­te­ce mes­mo com as mais capa­ci­ta­das, que tam­bém sofrem com o pre­con­cei­to e pre­ci­sam enfren­tar a des­con­fi­an­ça da pró­pria famí­lia para pro­var o seu valor. As mulhe­res estão se orga­ni­zan­do mui­to, estão estu­dan­do e já são mai­o­ria em mui­tas uni­ver­si­da­des. Elas estão se pre­pa­ran­do. 

Dados recen­tes da ONU indi­cam que 27% dos car­gos de lide­ran­ça são ocu­pa­dos por mulhe­res no Bra­sil. É uma con­quis­ta gran­de. Sabe­mos que as coi­sas estão mudan­do para melhor, mas não pode­mos dei­xar de seguir rei­vin­di­can­do nos­so espa­ço, sobre­tu­do no agro. Dos cer­ca de 5 milhões de pro­pri­e­da­des rurais espa­lha­das pelo Bra­sil, ape­nas 656 mil são coman­da­das por mulhe­res, é um núme­ro ain­da bai­xo. Temos mui­tas agri­cul­to­ras, pecu­a­ris­tas e pes­qui­sa­do­ras extre­ma­men­te pre­pa­ra­das no nos­so setor, mas que pela fal­ta de opor­tu­ni­da­des aca­bam fican­do pelo cami­nho. 

Todas as mulhe­res do agro che­gam jun­tas comi­go à pre­si­dên­cia. É uma hon­ra para mim repre­sen­tar as mulhe­res bata­lha­do­ras e per­se­ve­ran­tes, nós todas. Dese­jo que, num futu­ro pró­xi­mo, não seja pre­ci­so come­mo­rar isso como um gran­de mar­co. As con­quis­tas femi­ni­nas vão se tor­nar cada vez mais natu­rais. 

Meu reca­do para as mulhe­res que atu­am nas fazen­das lei­tei­ras e em todo o agro é que con­ti­nu­em exer­cen­do seus tra­ba­lhos com gran­de com­pe­tên­cia, bus­can­do sem­pre mais espe­ci­a­li­za­ção e conhe­ci­men­to sobre tec­no­lo­gia, gené­ti­ca e ges­tão. Deve­mos apoi­ar umas às outras para nun­ca desis­tir. O cami­nho pode ser lon­go, mas tenho cer­te­za, pela minha pró­pria tra­je­tó­ria, de que todas nós pode­mos che­gar aon­de qui­ser­mos.

Todas as mulhe­res do agro che­gam jun­tas comi­go à pre­si­dên­cia. É uma hon­ra para mim repre­sen­tar as mulhe­res bata­lha­do­ras e per­se­ve­ran­tes, nós todas.

Aliny Fer­rei­ra Spi­ti

Tem 25 anos, com formação técnica em Agroecologia. Mora com os pais no Sítio Boa Esperança, em Ivaiporã (PR). A família conta com 40 animais em lactação, com uma média de 22 litros dia, em sistema de confinamen­to compost barn

Inici­ei-me na ati­vi­da­de lei­tei­ra des­de mui­to nova, com 14 anos. Antes era tudo bem sim­ples, tínha­mos de três a cin­co vacas, ape­nas para as des­pe­sas. Hoje, é nos­sa prin­ci­pal fon­te de ren­da. 

Quan­do não esta­va na esco­la, esta­va aju­dan­do meu pai. Con­fes­so que nem sem­pre foi uma pai­xão e sim uma neces­si­da­de em tra­ba­lhar. Nos­sa pro­pri­e­da­de tem ape­nas 17 hec­ta­res, por isso opta­mos pela pecuá­ria de lei­te, para pro­du­zir mais, com menos. 

Aos pou­cos fui me apai­xo­nan­do pela ati­vi­da­de, bus­can­do conhe­ci­men­to em pales­tras, con­ver­san­do com vete­ri­ná­ri­os, visi­tan­do pro­pri­e­da­des, semi­ná­ri­os, até mes­mo cur­sos onli­ne. Nun­ca tive ver­go­nha de per­gun­tar, sem­pre fui uma pes­soa curi­o­sa.

Meu tra­ba­lho hoje no sítio con­sis­te em fazer orde­nha, mane­jo repro­du­ti­vo, sani­da­de dos ani­mais e às vezes o tra­to do gado.

Meu mai­or desa­fio na ati­vi­da­de lei­tei­ra, por ser mulher e jovem, foi supe­rar o pre­con­cei­to e demo­rei para con­quis­tar meu espa­ço nes­se tra­ba­lho. Ouvi algu­mas vezes dize­rem: “Ela nem sabe o que está fazen­do, deve ser mais uma turis­ta na ati­vi­da­de”. Fui à luta, colo­can­do a mão na mas­sa mes­mo, apren­den­do tudo sobre a ati­vi­da­de do lei­te.

Acre­di­to que nós, mulhe­res, temos uma per­cep­ção mais deta­lha­da de tudo o que faze­mos, somos mais capri­cho­sas, empe­nha­das, não temos medo de bata­lhar, e isso na pecuá­ria de lei­te é extre­man­te fun­da­men­tal. Sen­ti­mos mais, viven­ci­a­mos mais, nos tor­nan­do pes­so­as indis­pen­sá­veis na ati­vi­da­de, um toque femi­ni­no é sem dúvi­da o pin­go no “i”.

Hoje, como mulher, pos­so dizer que enca­ro des­de o tra­ba­lho mais bra­çal ao mais deli­ca­do, cla­ro que res­pei­tan­do meus limi­tes. As mulhe­res são tão capa­zes de fazer acon­te­cer quan­to os homens. Somos guer­rei­ras e inte­li­gen­tes, e, ten­do for­ça de von­ta­de, o céu é o limi­te.

Sin­to orgu­lho de estar entre tan­tas outras na ati­vi­da­de lei­tei­ra, pois esta­mos que­bran­do esse tabu de que mulher é o “sexo frá­gil”, somos tão capa­zes quan­to os homens.

As mulhe­res, por si só, já têm o ins­tin­to mater­nal, temos aque­le “sex­to sen­ti­do”, pres­ta­mos mais aten­ção nos ani­mais, prin­ci­pal­men­te nas vacas ges­tan­tes e bezer­ros recém-nas­ci­dos. Acre­di­to que isso é algo nos­so, por­tan­to a ati­vi­da­de lei­tei­ra é sem dúvi­da algo mui­to femi­ni­no, pois temos a sen­si­bi­li­da­de de cui­dar de cada ser vivo como se fos­sem filhos. Para encer­rar, que­ro dei­xar um reca­do para todas as pro­du­to­ras, fun­ci­o­ná­ri­as e téc­ni­cas do meio. Nos­so tra­ba­lho nem sem­pre é fácil, abri­mos mão de mui­ta coi­sa para pro­du­zir esse ali­men­to fan­tás­ti­co que é o “lei­te”. A ati­vi­da­de lei­tei­ra sem­pre teve e sem­pre terá seus altos e bai­xos, por isso sem­pre digo que lei­te é “amor”, tem que haver dedi­ca­ção, des­ta for­ma as coi­sas flu­em de uma manei­ra melhor.

Nós, mulhe­res, temos uma per­cep­ção mais deta­lha­da de tudo o que faze­mos, somos mais capri­cho­sas, empe­nha­das, não temos medo de bata­lhar, e isso na pecuá­ria de lei­te é extre­man­te fun­da­men­tal.

Maria Rosi­ne­te Sou­za Eff­ting

É produtora na Cabanha Guinther, em Braço do Norte (SC), onde possui 40 vacas da raça Jersey em lactação de um rebanho total de 120 animais. Iniciou a criação a pasto e hoje trabalha com confinamento free-stall climatizado (túnel de vento), com capacidade para 70 vacas em lactação e para outras 14 pré-parto e vacas secas. Produção diária de leite de 24 litros/dia/vaca, totalizando 980 litros/dia/rebanho

Depois de 24 anos cui­dan­do de meus qua­tro filhos e tra­ba­lhan­do como  res­pon­sá­vel pelo setor finan­cei­ro da nos­sa empre­sa de auto­ma­ção comer­ci­al, ini­ci­ei meu tra­ba­lho com gado Jer­sey. Eu e uma ami­ga médi­ca vete­ri­ná­ria fize­mos uma pro­pos­ta para meu mari­do para assu­mir­mos a pro­pri­e­da­de para a cri­a­ção de gado Jer­sey. Ela cui­da­va da par­te téc­ni­ca, enquan­to eu da admi­nis­tra­ção. Com­pra­mos as pri­mei­ras novi­lhas Jer­sey PO em janei­ro de 2004, e fun­da­mos Caba­nha Guinther.

Sem­pre fui mui­to curi­o­sa e ado­ro bus­car novi­da­des. Pro­cu­ro sem­pre fazer visi­tas a outras pro­pri­e­da­des aqui e no exte­ri­or (já visi­tei algu­mas no Cana­dá), além de semi­ná­ri­os, dias de cam­po e bus­ca de ino­va­ções e con­ta­tos duran­te as par­ti­ci­pa­ções em expo­si­ções.

Admi­nis­tro toda a Caba­nha, des­de a cri­a­ção dos ani­mais até a entre­ga de lei­te. Mui­tas vezes, faço remo­ta­men­te, pois minha resi­dên­cia fixa fica a 100 km da pro­pri­e­da­de, em Nova Vene­za (SC). Por isso, con­to mui­to com o apoio e tra­ba­lho de meus cola­bo­ra­do­res que moram na pro­pri­e­da­de. Ado­ro tam­bém cui­dar do plan­tio do milho e da pro­du­ção de feno, e mais ain­da tirar lei­te. 

 Assu­mir uma pro­pri­e­da­de foi um gran­de desa­fio e me ren­deu mui­to apren­di­za­do. Uma das difi­cul­da­des foi con­se­guir man­ter a boa gené­ti­ca dos pri­mei­ros ani­mais que com­prei: fica­va noi­tes e noi­tes pes­qui­san­do tou­ros que pode­ria uti­li­zar no cru­za­men­to com minhas vacas. Meu obje­ti­vo era ter uma gené­ti­ca que, além da qua­li­da­de lei­tei­ra, tam­bém tives­se um bom per­fil para expo­si­ções e fei­ras. Após o auxí­lio de téc­ni­cos espe­ci­a­li­za­dos e, mais uma vez, mui­to estu­do, hoje a Caba­nha Guinther tem reco­nhe­ci­men­to naci­o­nal por sua gené­ti­ca.

Ser uma mulher no agro­ne­gó­cio foi um desa­fio mui­to gran­de, ain­da mais numa região de peque­nos pro­du­to­res fami­li­a­res, que tem como cos­tu­me o homem estar no coman­do da pro­pri­e­da­de. Mas aos pou­cos fui con­se­guin­do espa­ço no setor e o apoio das outras mulhe­res pro­du­to­ras de lei­te da região.

Sem­pre enca­rei os negó­ci­os de for­ma mui­to pro­fis­si­o­nal, o que me trou­xe tran­qui­li­da­de. Acho a pre­sen­ça da mulher no agro mui­to posi­ti­va. A mão de obra no setor está cada vez mais escas­sa, e a gran­de mai­o­ria das vezes a pro­du­ção é somen­te fami­li­ar. Com a divi­são das tare­fas na famí­lia, vejo que mui­tas vezes a mulher fica com a res­pon­sa­bi­li­da­de de tra­tar os ani­mais e tirar o lei­te, e os homens com o tra­ba­lho de pro­du­zir o ali­men­to dos ani­mais. 

Des­ta for­ma, a par­ti­ci­pa­ção dire­ta da mulher na ati­vi­da­de lei­tei­ra somen­te acres­cen­ta e traz novas idei­as. Porém, refor­ço que sua par­ti­ci­pa­ção deve­ria ser mais ampla no pla­ne­ja­men­to e na estru­tu­ra­ção do setor. Sem­pre tive fun­ci­o­ná­ri­as mulhe­res. Ini­ci­al­men­te elas eram con­tra­ta­das em razão do con­tra­to que os mari­dos tinham com a pro­pri­e­da­de. Mas já faz alguns anos que con­tra­to fun­ci­o­ná­ri­as que têm papel prin­ci­pal e pri­mor­di­al na pro­pri­e­da­de. A que hoje tra­ba­lha comi­go é res­pon­sá­vel por tirar o lei­te, pelo con­tro­le lei­tei­ro, auxi­lia no con­tro­le de doen­ças dos ani­mais, no con­tro­le de cios das vacas, e nas res­pon­sa­bi­li­da­des de outros seto­res, inclu­si­ve cola­bo­ran­do no setor do mari­do dela, quan­do neces­sá­rio. Em todo esse tem­po obser­vei que as mulhe­res são mais deta­lhis­tas e têm uma visão mais ampla, o que é exce­len­te den­tro do setor lei­tei­ro.

Como men­ci­o­nei ante­ri­or­men­te, vejo que a mulher tem uma visão mui­to ampla sobre a ati­vi­da­de, bem como con­se­gue tra­ba­lhar os deta­lhes de for­ma mais coe­sa den­tro des­te todo que ela ava­lia. Ao mes­mo tem­po em que con­se­gue ana­li­sar situ­a­ções que ocor­rem em toda a pro­pri­e­da­de, ela tam­bém con­se­gue focar em deta­lhes do cui­da­do com cada ani­mal. Aque­le olhar de mulher/mãe: sem­pre de olho em tudo, porém aten­ta a cada deta­lhe.

Acre­di­to que uma par­ce­ria entre homens e mulhe­res, cada um tra­ba­lhan­do no setor que mais tem apti­dão, é a fór­mu­la ide­al para a pecuá­ria lei­tei­ra.

 Em todo esse tem­po obser­vei que as mulhe­res são mais deta­lhis­tas e têm uma visão mais ampla, o que é exce­len­te den­tro do setor lei­tei­ro.

Dani­el­la Mar­tins da Sil­va

Graduada em medicina veterinária, é, filha de Magnólia Martins e está à frente da Java Pecuária, em Monte Alegre de Minas (MG). Conta com 85 vacas Girolando em lactação, sob sistema de semiconfinamento, que produzem 2.000 litros de leite/dia, com média geral de 23,5 litros/vaca/dia

Minha pai­xão pela ati­vi­da­de lei­tei­ra vem des­de cri­an­ça, gra­ças à vivên­cia com meus pais pro­du­to­res de lei­te há vári­os, que me cri­a­ram jun­to com as vacas de lei­te. Des­de os meus dez anos, já tinha na cabe­ça que tra­ba­lha­ria com esses ani­mais: o lei­te já cor­ria na veia. Em 2008, jun­ta­men­te com meu espo­so, ini­ci­a­mos a ati­vi­da­de em nos­sa fazen­da. Mes­mo assim, con­ti­nu­ou como o bra­ço direi­to de meus pais na fazen­da deles. 

Sem­pre bus­co apri­mo­rar meus conhe­ci­men­tos, par­ti­ci­pan­do de pales­tras, cur­sos e de expo­si­ções onde vive­mos uma imen­sa tro­ca de expe­ri­ên­ci­as com os pro­du­to­res.

Hoje temos uma pro­du­ção de 2.000 litros/leite/dia. Fico mais dire­ci­o­na­da à par­te sani­tá­ria da fazen­da e no melho­ra­men­to gené­ti­co dos ani­mais. Nos­so gado é 100% regis­tra­do na Giro­lan­do e temos algu­mas­nha pai­xão pela ati­vi­da­de lei­tei­ra vem des­de cri­an­ça, gra­ças à vivên­cia com meus pais pro­du­to­res de lei­te há vári­os, que me cri­a­ram jun­to com as vacas de lei­te. Des­de os meus dez anos, já tinha na cabe­ça que tra­ba­lha­ria com esses ani­mais: o lei­te já cor­ria na veia. Em 2008, jun­ta­men­te com meu espo­so, ini­ci­a­mos a ati­vi­da­de em nos­sa fazen­da. Mes­mo assim, con­ti­nu­ou como o bra­ço direi­to de meus pais na fazen­da deles. 

Sem­pre bus­co apri­mo­rar meus conhe­ci­men­tos, par­ti­ci­pan­do de pales­tras, cur­sos e de expo­si­ções onde vive­mos uma imen­sa tro­ca de expe­ri­ên­ci­as com os pro­du­to­res.

Hoje temos uma pro­du­ção de 2.000 litros/leite/dia. Fico mais dire­ci­o­na­da à par­te sani­tá­ria da fazen­da e no melho­ra­men­to gené­ti­co dos ani­mais. Nos­so gado é 100% regis­tra­do na Giro­lan­do e temos algu­mas matri­zes Gir Lei­tei­ro para pro­du­ção do meio-san­gue Holan­dês/­meio-san­gue Gir.

Não acho que, pelo fato de ser mulher, haja difi­cul­da­des na ati­vi­da­de lei­tei­ra. Nas­ce­mos para ser ver­da­dei­ras com­pa­nhei­ras dos homens, eu e meu mari­do tra­ba­lha­mos jun­tos, toma­mos deci­sões jun­tos, cami­nha­mos lado a lado, nenhum é mais do que o outro. Vejo a pre­sen­ça da mulher no agro­ne­gó­cio como algo mui­to posi­ti­vo, mui­tas mulhe­res não assu­mi­am a ati­vi­da­de, acre­di­to que por medo ou pres­são. E hoje mos­tra­mos que esta­mos cada vez mais aptas a isso, bus­ca­mos conhe­ci­men­to, apri­mo­ran­do nos­sa par­ti­ci­pa­ção na ati­vi­da­de. 

Pre­ci­sa­mos urgen­te mudar as polí­ti­cas do lei­te, ter mais incen­ti­vo na ati­vi­da­de, mai­or pre­vi­si­bi­li­da­de nos pre­ços, melho­ra nos cus­tos de pro­du­ção, ter um mar­ke­ting melhor. Hoje pra­ti­ca­men­te paga­mos pra pro­du­zir lei­te. O pro­du­tor não está aguen­tan­do mais, embo­ra tenha pai­xão pela ati­vi­da­de.

A pecuá­ria lei­tei­ra, como qual­quer outra ati­vi­da­de, requer mui­to tra­ba­lho, dedi­ca­ção e amor no que se faz. Tan­to o homem quan­to a mulher estão aptos a ela. O dife­ren­ci­al da mulher seria sua habi­li­da­de mater­na e sen­si­bi­li­da­de para lidar com os dife­ren­tes desa­fi­os.

As mulhe­res têm de cor­rer atrás de seus sonhos. Não tenham medo, enfren­tem as bar­rei­ras, pre­con­cei­tos e mos­trem que são capa­zes.

Não tenham medo, enfren­tem as bar­rei­ras, pre­con­cei­tos e mos­trem 
que são capa­zes.

Mag­no­lia Mar­tins da Sil­va

Produtora na Fazenda Valinhos, em Monte Alegre de Minas (MG), com 150 vacas da raça Girolando em lactação, sob sistema de semiconfinamento, e que produzem 3.000 litros/leite/dia, com média geral de 20 litros/leite/vaca/dia

Meu tra­ba­lho na Fazen­da Vali­nhos se ini­ci­ou em 1990, sob a ins­pi­ra­ção de meus pais, que eram pro­du­to­res rurais com ati­vi­da­des diver­si­fi­ca­das, inclu­si­ve pro­du­zi­am lei­te para o sus­ten­to da famí­lia. Com o fale­ci­men­to do meu pai, bus­quei con­ti­nu­ar com o que mais me iden­ti­fi­ca­va, que era a ati­vi­da­de lei­tei­ra. Com isso bus­quei apri­mo­rar meus conhe­ci­men­tos com cur­sos, pales­tras e visi­tas a pro­pri­e­da­des rurais.

Come­cei com 30 litros/leite/dia, fui toman­do gos­to pela ati­vi­da­de e pas­sei a inves­tir em gené­ti­ca para a melho­ria do poten­ci­al de pro­du­ção das vacas, visan­do ao aumen­to da pro­du­ti­vi­da­de. O plan­tel é Giro­lan­do 100%, regis­tra­do, e temos tam­bém matri­zes Gir Lei­tei­ro para fazer o F1. Em 1996 me asso­ci­ei à Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra dos Cri­a­do­res de Giro­lan­do e bus­quei assis­tên­cia téc­ni­ca espe­ci­a­li­za­da para dire­ci­o­nar o meu tra­ba­lho.

Um de meus gran­des desa­fi­os foi o aumen­to da pro­du­ção e, em para­le­lo, desen­vol­ver estru­tu­ra, mane­jo e die­ta de qua­li­da­de para che­gar ao que alme­ja­va, que eram ani­mais de alto valor gené­ti­co.

Na minha expe­ri­ên­cia, pro­cu­rei tra­ba­lhar na pró­pria orde­nha, tiran­do lei­te, acom­pa­nhan­do o mane­jo dia­ri­a­men­te para ver se seria aqui­lo mes­mo o que eu que­ria. Vi que era capaz, sem nenhu­ma com­pe­ti­ção, ape­nas fazen­do o que real­men­te gos­to e me faz bem. 

Vári­as vezes me depa­rei com o pre­con­cei­to por ser mulher à fren­te da ati­vi­da­de lei­tei­ra. Enfren­tei tudo isso como um desa­fio a supe­rar, cada crí­ti­ca me for­ta­le­cia e todos os obs­tá­cu­los foram ven­ci­dos, fica­ram pra trás. Tudo ser­viu de apren­di­za­do.

Hoje as mulhe­res estão à fren­te não por com­pe­tir com o homem, mas por sua pró­pria capa­ci­da­de e empe­nho. No pas­sa­do, às vezes, elas tinham receio em ocu­par um espa­ço que até então era do homem. Hoje, mos­tra­mos que somos capa­zes, com alto poten­ci­al e habi­li­da­des. Acho que, por ser­mos mães, temos o dom de cri­ar.

Tenho con­tra­ta­do mulhe­res para lidar com a cri­a­ção de bezer­ras. Per­ce­bo que tra­tam as bezer­ras como filhas, com mui­to cari­nho, higi­e­ne e dedi­ca­ção. Além dis­so, con­to com a aju­da de minha filha Dani­e­la, que é meu bra­ço direi­to em todos os aspec­tos da ati­vi­da­de. O fato de ser mãe, de cui­dar, zelar, ter dife­ren­tes ati­vi­da­des no dia a dia, faz com que a mulher se iden­ti­fi­que melhor na ati­vi­da­de lei­tei­ra pelo fato de ter essa sen­si­bi­li­da­de mater­na.

O reca­do que dei­xo a todas as mulhe­res é que sigam seus sonhos sem medo. Lutem, se qua­li­fi­quem e se dedi­quem, por­que somos capa­zes!

Ana Maria Ribei­ro Scar­pa Pin­to Nilo

Produtora de leite no Sítio Pousada do Sol, em Itanhandu (MG), com 45 vacas Holandesas em lactação, em sistema de compost barn, com produção diária de leite 30 litros de média, totalizando 1.300 litros/dia de leite

Nasci no lei­te, pois meu avô e meu pai sem­pre foram pro­du­to­res de lei­te e cri­a­do­res de gado Holan­dês, sem­pre bus­can­do o melhor des­sa raça.  Des­de que ini­ci­ei como pro­du­to­ra, sem­pre bus­quei melho­res con­di­ções tec­no­ló­gi­cas e qua­li­da­de para pro­du­zir um ali­men­to que pos­sa ser con­su­mi­do em qual­quer par­te do mun­do. Meu tra­ba­lho é o geren­ci­a­men­to da fazen­da. Entre os prin­ci­pais desa­fi­os está sem­pre o econô­mi­co, sobre­tu­do no que diz res­pei­to à redu­ção e raci­o­na­li­za­ção dos cus­tos e ao aumen­to da pro­du­ti­vi­da­de. Daí o apri­mo­ra­men­to tec­no­ló­gi­co cons­tan­te da pro­du­ção, como os mais recen­tes o sis­te­ma de com­post barn, equi­pa­men­tos de últi­ma gera­ção, ado­ção de pro­gra­ma de gestão/reprodução, ener­gia solar com a ins­ta­la­ção de pla­cas foto­vol­tai­cas, entre outros. Há tam­bém o desa­fio da ges­tão de pes­so­as, que­bran­do para­dig­mas, pre­con­cei­tos e capa­ci­tan­do os cola­bo­ra­do­res: esta­mos implan­tan­do na fazen­da  o Agro+Lean. Acre­di­to que esse seja o cami­nho para garan­tir pro­du­ção de ali­men­to de qua­li­da­de aos ani­mais, mane­jo efi­ci­en­te, pro­fis­si­o­nais capa­ci­ta­dos e lei­te de alta qua­li­da­de. Acres­cen­to ain­da, como par­te des­se tra­ba­lho, a bus­ca para pro­por­ci­o­nar a nos­sos cola­bo­ra­do­res melho­res con­di­ções de tra­ba­lho, qua­li­da­de de vida e opor­tu­ni­da­des de capa­ci­ta­ção. Em minha con­cep­ção é fun­da­men­tal que haja uma rela­ção de par­ce­ria entre mim e eles, pois isso é a base para o bom desem­pe­nho da ati­vi­da­de. Em rela­ção à apti­dão da mulher na ges­tão de uma pro­pri­e­da­de lei­tei­ra, em alguns aspec­tos pode ser mais difí­cil do que para o homem, mas é algo facil­men­te supe­ra­do com dedi­ca­ção, conhe­ci­men­tos e deter­mi­na­ção. Nós, mulhe­res, gra­ças à nos­sa sen­si­bi­li­da­de, somos mais efi­ci­en­tes no mane­jo, na cri­a­ção de bezer­ras e na qua­li­da­de do lei­te. Mes­mo encon­tran­do pre­con­cei­tos no mer­ca­do, nun­ca me depa­rei com essa situ­a­ção. Nos­sa ati­vi­da­de, hoje, cada vez mais está sen­do lide­ra­da por mulhe­res e isso vem que­bran­do mui­tos para­dig­mas. Como temos pro­pen­são para a orga­ni­za­ção, cons­ta­ta­mos, num gru­po de pro­du­to­res, que as fazen­das mais bem orga­ni­za­das são as geren­ci­a­das por mulhe­res. Por fim, gos­ta­ria de dizer às mulhe­res do agro: façam bem fei­to, conhe­çam o mer­ca­do, sejam efi­ci­en­tes, e assim terão uma óti­ma ges­tão da por­tei­ra para den­tro.

Nós, mulhe­res, gra­ças à nos­sa sen­si­bi­li­da­de, somos mais efi­ci­en­tes no mane­jo, na cri­a­ção de bezer­ras e na qua­li­da­de do lei­te. 

Rober­ta Mara Züge

Médica veterinária, mestre e doutora, atua como consultora na área de qualidade, especificamente com boas práticas, normativas e certificação. Também é superintendente da ABCBRH

Desde antes de entrar na facul­da­de, que­ria tra­ba­lhar com pro­du­ção ani­mal. Era ado­les­cen­te e lem­bro de ler uma maté­ria sobre enge­nha­ria gené­ti­ca. Ali defi­ni que iria fazer vete­ri­ná­ria e tra­ba­lhar na área. Fiz um está­gio em Han­no­ver. Lá, as vacas de lei­te, prin­ci­pal­men­te Holan­de­sas, domi­nam. Assim, logo após a gra­du­a­ção, fiz mes­tra­do e dou­to­ra­do com repro­du­ção de bovi­nos. No Para­ná, tive a opor­tu­ni­da­de de estrei­tar os conhe­ci­men­tos na área de garan­tia da qua­li­da­de. Com isso, a con­vi­te do Minis­té­rio da Agri­cul­tu­ra e do Inme­tro, coor­de­nei a nor­ma de cer­ti­fi­ca­ção de lei­te, pro­je­to de 2005. Des­de então, minha inser­ção no setor é into­cá­vel. 

Pelo que tem obser­va­do, o empo­de­ra­men­to das mulhe­res nes­sa área está tra­zen­do algo de novo para ati­vi­da­de. Ain­da há pre­con­cei­to. As equi­pes de cam­po con­tam com pou­cas mulhe­res. 

Vejo mui­to dis­cur­so do lei­te 4.0, mas isto é incom­pa­tí­vel para os que ain­da man­têm a equi­pe pra­ti­ca­men­te toda mas­cu­li­na. Não fal­tam mulhe­res qua­li­fi­ca­das. Em pes­qui­sa do Sin­di­vet- PR, foi mos­tra­do que há mais mulhe­res na pro­fis­são, mas na pro­du­ção ani­mal ain­da somos pou­co repre­sen­ta­ti­vas. 

No entan­to, mes­mo com este pre­con­cei­to, algu­mas carac­te­rís­ti­cas que as mulhe­res expres­sam mais estão sen­do valo­ri­za­das. As novas nor­ma­ti­vas exi­gem mais orga­ni­za­ção e con­tro­le, como regis­tros de pro­ce­di­men­tos, algo que mui­tos homens que­rem dis­tân­cia. Assim, uma mulher com mais sen­so orga­ni­za­ci­o­nal tem sido deman­da­da.

 De modo geral, as mulhe­res estu­dam mais. Em qual­quer nível soci­o­cul­tu­ral esta pre­mis­sa é ver­da­dei­ra. Elas são a mai­o­ria dos cur­sos de espe­ci­a­li­za­ção, assim como de stric­to sen­su. Infe­liz­men­te isso não se refle­te na remu­ne­ra­ção. Ain­da há uma defa­sa­gem impor­tan­te. No entan­to, o conhe­ci­men­to está sen­do mais valo­ri­za­do, exa­ta­men­te pela mai­or pro­fis­si­o­na­li­za­ção do setor.

Um dos pon­tos que ges­to­res mais ante­na­dos já per­ce­be­ram é apro­vei­tar melhor as carac­te­rís­ti­cas de seus cola­bo­ra­do­res. De modo geral, até por uma ques­tão soci­al, a mulher aca­ba ten­do mais con­ta­to com cui­da­dos de cri­an­ças. Cui­da­dos com higi­e­ne são fun­da­men­tais para um bom desen­vol­vi­men­to de recém-nas­ci­dos, por exem­plo. A mes­ma pre­mis­sa se apli­ca à cri­a­ção de bezer­ros. O tra­to com a tem­pe­ra­tu­ra do lei­te para bezer­ros tam­bém se apli­ca para ali­men­tar bebês ou cui­dar de umbi­go. Até a for­ma de se expres­sar e con­ver­sar com este “bebê”é seme­lhan­te. Quem não gos­ta de ser cui­da­do com cari­nho de mãe? 

Tam­bém na orde­nha, a mulher tem uma pre­o­cu­pa­ção mai­or com higi­e­ne e mui­tas delas têm afi­ni­da­de com a cozi­nha, algo pre­co­ni­za­do des­de cedo para as meni­nas A orde­nha é uma sala de mani­pu­la­ção de ali­men­to. E de um ali­men­to mui­to pere­cí­vel, de alto valor nutri­ci­o­nal para nós e, cla­ro, por isso, mui­to dese­ja­do pelos micror­ga­nis­mos. Assim, exi­ge mui­ta higi­e­ne e cui­da­dos, carac­te­rís­ti­ca mais cul­tu­a­das pelas mulhe­res.

Assim, há fun­ções que os ges­to­res 4.0 já sabem que terão melho­res resul­ta­dos se esti­ve­rem a car­go de mulhe­res. Outra carac­te­rís­ti­ca, mui­to impor­tan­te, é a res­pon­sa­bi­li­da­de. As mulhe­res se dedi­cam mais às suas ati­vi­da­des pro­fis­si­o­nais, pois delas depen­dem o sus­ten­do e a vida de seus filhos. Este sen­ti­men­to, inclu­si­ve liga­do aos níveis de pro­lac­ti­na, é mui­to mais inten­so nas mulhe­res que nos homens. 

Con­vi­vo de for­ma vir­tu­al, dia­ri­a­men­te, com diver­sas pro­du­to­ras, aque­las que estão na orde­nha, na lida mes­mo. Elas ado­ram suas ati­vi­da­des, têm pra­zer em lidar com os ani­mais. Hoje as redes soci­ais per­mi­tem mai­or inte­gra­ção e pode­mos saber mais o que pen­sam pes­so­as que estão a milha­res de quilô­me­tros de dis­tân­cia. 

Por sor­te, vejo que mui­tas das jovens mulhe­res que estão no lei­te estão mais esco­la­ri­za­das, isto é um dos prin­ci­pais pon­tos que pre­ci­sa­mos garan­tir para uma melho­ria da soci­e­da­de como um todo.

As mulhe­res estu­dam  mais. Em qual­quer nível soci­o­cul­tu­ral esta pre­mis­sa é ver­da­dei­ra. Elas são a mai­o­ria dos cur­sos de spe­ci­a­li­za­ção.

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