{"id":23317,"date":"2023-04-25T23:53:49","date_gmt":"2023-04-26T02:53:49","guid":{"rendered":"https:\/\/baldebranco.com.br\/?p=23317"},"modified":"2023-04-25T23:53:49","modified_gmt":"2023-04-26T02:53:49","slug":"embrapa-50-anos-a-ciencia-que-proporciona-economia-bilionaria-ao-agro-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/embrapa-50-anos-a-ciencia-que-proporciona-economia-bilionaria-ao-agro-brasileiro\/","title":{"rendered":"Embrapa 50 anos: a ci\u00eancia que proporciona economia bilion\u00e1ria ao agro brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Juliana Caldas &#8211; jornalista da Embrapa Cerrados<\/strong><\/p>\n<p>Se hoje o Brasil \u00e9 uma pot\u00eancia agr\u00edcola mundial \u00e9 porque conseguiu estabelecer uma produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel no Cerrado, bioma conhecido pela baixa fertilidade dos solos. Essa conquista deve-se, em grande parte, ao trabalho da Embrapa Cerrados, localizada em Planaltina (DF). Criado em 1975, dois anos ap\u00f3s a funda\u00e7\u00e3o da Embrapa que completa 50 anos em 2023, o centro de pesquisa foi concebido com o desafio de ajudar a viabilizar a produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria no Cerrado brasileiro no bojo de uma pol\u00edtica governamental que previa um conjunto de a\u00e7\u00f5es a serem implementadas na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O objetivo de desenvolver sistemas produtivos com viabilidade econ\u00f4mica, social e ambiental para o Cerrado n\u00e3o foi apenas alcan\u00e7ado, como hoje a regi\u00e3o \u00e9 o grande celeiro do Brasil e sua import\u00e2ncia no cen\u00e1rio agropecu\u00e1rio aumenta a cada ano. Algumas tecnologias desenvolvidas pela equipe do centro de pesquisa foram decisivas para que os solos \u00e1cidos e pobres em nutrientes, t\u00edpicos do Cerrado, fossem incorporados ao processo agr\u00edcola. \u201cSem corre\u00e7\u00e3o dos solos, n\u00e3o haveria agricultura nos cerrados, sem a qual n\u00e3o haveria agricultura tropical do jeito que a conhecemos, com o tamanho, a efici\u00eancia e import\u00e2ncia que hoje tem para o mundo\u201d, ressalta o chefe-geral da Embrapa Cerrados, Sebasti\u00e3o Pedro da Silva Neto.<\/p>\n<p>Uma das tecnologias que ajudaram a transformar o bioma est\u00e1 fazendo 30 anos em 2023 e, apesar do tempo, continua eficiente e atual: o lan\u00e7amento das estirpes de bact\u00e9rias fixadoras de nitrog\u00eanio (riz\u00f3bios) para a inocula\u00e7\u00e3o da soja CPAC-7 (SEMIA 5080) e CPAC-15 (SEMIA 5079). \u201cAt\u00e9 hoje essas estirpes permanecem como as mais eficientes\u201d, destaca a pesquisadora da Embrapa Cerrados, Ieda Mendes. Ap\u00f3s 18 anos de estudos, em 1993, a empresa lan\u00e7ou essas duas estirpes que ainda hoje comp\u00f5em os inoculantes comerciais (produtos que cont\u00eam microrganismos favor\u00e1veis ao crescimento das plantas).<\/p>\n<p>As pesquisas realizadas na \u00e9poca comprovaram que as estirpes CPAC-7 e CPAC-15 eram mais eficientes e competitivas que as lan\u00e7adas pela pr\u00f3pria Embrapa Cerrados em 1980 (29W e SEMIA 587). Como elas foram isoladas e selecionadas em \u00e1reas de Cerrado, cultivadas com soja, s\u00e3o adaptadas ao bioma. Mesmo j\u00e1 tendo se passado quatro d\u00e9cadas, o desempenho excepcional dessas bact\u00e9rias faz com que at\u00e9 hoje as quatro estirpes selecionadas pela Embrapa Cerrados (CPAC 15, CPAC 7, 29W e SEMIA 587) permane\u00e7am como as \u00fanicas recomendadas para a cultura da soja no Brasil.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-24794 alignright\" src=\"https:\/\/baldebranco.jabes.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/unnamed-300x199.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"199\" \/>Se forem considerados os 43,5 milh\u00f5es de hectares plantados com soja no pa\u00eds na safra 2022\/2023 (Conab), e os recentes aumentos nos pre\u00e7os do adubo nitrogenado, a economia proporcionada pela fixa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica de nitrog\u00eanio, que permite o cultivo sem a utiliza\u00e7\u00e3o de adubos nitrogenados, \u00e9 da ordem de US$ 43,5 bilh\u00f5es por ano. \u201cAl\u00e9m disso, tamb\u00e9m temos os ganhos ambientais, j\u00e1 que o processo biol\u00f3gico n\u00e3o resulta em polui\u00e7\u00e3o ambiental\u201d, ressalta Mendes.<\/p>\n<p>\u201cO lan\u00e7amento de estirpes de riz\u00f3bios para a cultura da soja foi um dos fatores determinantes para a expans\u00e3o dessa leguminosa no Cerrado\u201d, afirma o pesquisador da Embrapa Jos\u00e9 Roberto Peres. Do grupo de jovens cientistas do qual Peres fazia parte tamb\u00e9m atuavam os pesquisadores Milton Vargas e Allert Suhet. \u201c\u00c9 uma alegria ter feito parte da equipe que trabalhou na sele\u00e7\u00e3o dessas estirpes. Essa \u00e9 uma tecnologia que chegou para resolver um problema e at\u00e9 hoje reduz muito o custo de produ\u00e7\u00e3o da cultura\u201d, ressalta Vargas. \u201cNa \u00e9poca, n\u00e3o imagin\u00e1vamos que essas estirpes seriam usadas por tanto tempo. Isso nos d\u00e1 uma satisfa\u00e7\u00e3o pessoal por saber que o trabalho da equipe continua contribuindo para a economia de bilh\u00f5es de d\u00f3lares anualmente para o Brasil\u201d, destaca Allert.<\/p>\n<p><strong>Tecnologias de destaque<\/strong><\/p>\n<p>Naturalmente pobres em nutrientes, os solos do Cerrado s\u00f3 se tornaram aptos \u00e0 pr\u00e1tica agr\u00edcola gra\u00e7as ao trabalho cient\u00edfico. Foi necess\u00e1rio, especialmente, o desenvolvimento de tecnologias relacionadas \u00e0 corre\u00e7\u00e3o da acidez dos solos e daquelas ligadas \u00e0 aduba\u00e7\u00e3o. Foram os cientistas da Embrapa Cerrados que definiram as recomenda\u00e7\u00f5es de aplica\u00e7\u00e3o dos macro e micronutrientes necess\u00e1rios para as lavouras.<\/p>\n<p>Os primeiros estudos feitos no campo nos anos 1970 indicaram que se a acidez n\u00e3o fosse corrigida e os fertilizantes n\u00e3o fossem adicionados, a produtividade da soja chegaria a cinco sacas por hectare e a do milho estaria muito pr\u00f3xima de zero. O trabalho de estipular os crit\u00e9rios de corre\u00e7\u00e3o e aduba\u00e7\u00e3o mudaram a paisagem do bioma tornando-o o maior campo produtivo do Brasil com mais de 40 milh\u00f5es de hectares e rendeu ao pesquisador da Embrapa Cerrados Edson Lobato, em 2006, o Pr\u00eamio Mundial de Alimenta\u00e7\u00e3o (<em>The World Food Prize<\/em>), conquistado conjuntamente com Alysson Paulinelli, ex-ministro da Agricultura.<\/p>\n<p>\u00c9 importante notar que foi a expans\u00e3o agr\u00edcola no Cerrado que permitiu ao Brasil passar da condi\u00e7\u00e3o de importador para de exportador de alimentos. Antes desse trabalho de pesquisa o Pa\u00eds tinha de importar alimentos. Hoje, somente as safras de soja rendem mais de US$ 70 bilh\u00f5es ao Pa\u00eds.<\/p>\n<p>A equipe da Embrapa Cerrados desenvolveu ainda cultivares e sistemas de produ\u00e7\u00e3o adaptados ao bioma, com destaque para as de soja, trigo, milho, cana-de-a\u00e7\u00facar, caf\u00e9, mandioca, cevada, seringueira, frut\u00edferas, al\u00e9m de gram\u00edneas e leguminosas forrageiras.<\/p>\n<p>Outro aporte tecnol\u00f3gico que moldou a agricultura tropical e que teve a contribui\u00e7\u00e3o da Embrapa Cerrados foi o desenvolvimento de sistemas de produ\u00e7\u00e3o irrigada sob piv\u00f4 central para superar o d\u00e9ficit h\u00eddrico causado pelos \u201cveranicos\u201d t\u00edpicos da regi\u00e3o em fevereiro e mar\u00e7o. Sem a irriga\u00e7\u00e3o, a safrinha seria incerta, com anos bons e ruins, e n\u00e3o haveria no Cerrado a safra de inverno, como existe na regi\u00e3o Sul.<\/p>\n<p>\u201cSem essa tecnologia, o Brasil simplesmente n\u00e3o teria a sucess\u00e3o de cultivos tais como soja-milho-algod\u00e3o, ou de soja-milho-feij\u00e3o, ou ainda duas safras de gr\u00e3os e uma de forragem, em uma mesma \u00e1rea, em um mesmo ano, como existe hoje, o que agrega enorme economicidade \u00e0s fazendas\u201d, afirma Lineu Neiva Rodrigues, pesquisador da Embrapa Cerrados especializado em manejo de recursos h\u00eddricos.<\/p>\n<p>A Unidade ecorregional tamb\u00e9m teve pioneirismo e participa\u00e7\u00e3o efetiva na elabora\u00e7\u00e3o do Zoneamento Agr\u00edcola de Risco Clim\u00e1tico (Zarc), ferramenta de gest\u00e3o de risco que orienta sobre as \u00e9pocas de cultivo de esp\u00e9cies agr\u00edcolas em que h\u00e1 menor chance de perda de produtividade considerando as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e a aptid\u00e3o de cada regi\u00e3o. Essa tecnologia permite a economia de bilh\u00f5es de d\u00f3lares anualmente e ainda viabilizou servi\u00e7os financeiros como o cr\u00e9dito e o seguro rural, que passaram a contar com crit\u00e9rios t\u00e9cnicos de avalia\u00e7\u00e3o de risco.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m coube a equipe de especialistas da Embrapa Cerrados o desenvolvimento das primeiras recomenda\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas de manejo, conserva\u00e7\u00e3o e uso dos solos do Cerrado e tecnologias sobre adubos verdes, plantas de cobertura e outras para o sistema de plantio direto. Especialistas da unidade de pesquisa criaram ainda implementos e m\u00e1quinas agr\u00edcolas adequadas para o uso na regi\u00e3o, as quais subsidiaram o desenvolvimento das mais modernas tecnologias de mecaniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Vale destacar que o primeiro processo de patente da Embrapa foi de uma semeadeira para gram\u00edneas e forrageiras desenvolvido por especialistas da Embrapa Cerrados.<\/p>\n<p>Mais recentemente, em julho de 2020, a Unidade lan\u00e7ou a tecnologia BioAS (bioan\u00e1lise de solo) que passou a revelar aspectos relacionados ao funcionamento biol\u00f3gico do solo. O componente central da tecnologia consiste na an\u00e1lise de duas enzimas (beta-glicosidase e arilsulfatase) que est\u00e3o relacionadas ao potencial produtivo e \u00e0 sustentabilidade do uso do solo e funcionam como bioindicadores da sa\u00fade do solo. Quantidades elevadas desses bioindicadores indicam sistemas de produ\u00e7\u00e3o ou pr\u00e1ticas de manejo do solo adequadas e sustent\u00e1veis. Por outro lado, valores baixos servem de alerta para o agricultor reavaliar o sistema de produ\u00e7\u00e3o e adotar boas pr\u00e1ticas de manejo.<\/p>\n<p><strong>Desafios atuais<\/strong><\/p>\n<p>Atualmente, a unidade de pesquisa est\u00e1 empenhada na gera\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es que maximizem a sustentabilidade de sistemas agroprodutivos em condi\u00e7\u00f5es de Cerrado, bem como na promo\u00e7\u00e3o de desenvolvimento sustent\u00e1vel baseado em agroinova\u00e7\u00e3o. \u201cPrecisamos fortalecer o desenvolvimento de tecnologias para avaliar e validar os ativos ambientais de forma a torn\u00e1-los monetiz\u00e1veis\u201d, declara Sebasti\u00e3o Pedro. Para ele, n\u00e3o cabe mais produzir sem atentar para os eixos de sustentabilidade ambiental, social e econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>\u201cHoje, se o agricultor e pecuarista brasileiro for sustent\u00e1vel do ponto de vista ambiental e social ele ter\u00e1 lucro\u201d, enfatiza. Ele ressalta que h\u00e1 tecnologia para produzir no Cerrado duas safras de gr\u00e3os e uma de forragem (que se transforma em prote\u00edna animal). \u201cDessa forma, o solo fica 100% do tempo coberto, protegido, gerando alimentos e ativos ambientais\u201d, frisa o gestor.<\/p>\n<p><strong>N\u00fameros da Embrapa Cerrados<\/strong><\/p>\n<p>As centenas de tecnologias desenvolvidas pela Embrapa Cerrados e parceiros que transformaram o Cerrado e o Brasil envolveram equipes multidisciplinares em diferentes \u00e1reas tem\u00e1ticas de pesquisa, gest\u00e3o, transfer\u00eancia de tecnologia e inova\u00e7\u00e3o. Atualmente, a Embrapa Cerrados possui 365 empregados, sendo 98 pesquisadores, 60 analistas, 51 t\u00e9cnicos e 156 assistentes.<\/p>\n<p>A Unidade disp\u00f5e de tr\u00eas ambientes promotores de inova\u00e7\u00e3o:\u00a0 Centro de Tecnologia para Ra\u00e7as Zebu\u00ednas Leiteiras \u2013 CTZL (DF, 300 ha), Centro de Desempenho Animal \u2013 CDA (Santo Ant\u00f4nio de Goi\u00e1s, 110 ha) e o Centro de Inova\u00e7\u00e3o em Gen\u00e9tica Vegetal \u2013 CIGV (DF, 450 ha).<\/p>\n<p>A estrutura experimental em Planaltina (DF) abrange de 2.130 ha, incluindo 700 ha de reservas ecol\u00f3gicas permanentes. Possui:<\/p>\n<p>25 laborat\u00f3rios especializados<br \/>\n8 casas de vegeta\u00e7\u00e3o<br \/>\n11 n\u00facleos de apoio \u00e0 pesquisa<br \/>\nViveiro de plantas<br \/>\n12 bancos ativos de germoplasma<br \/>\nCampos experimentais sob distintas condi\u00e7\u00f5es para pesquisa agr\u00edcola, pecu\u00e1ria e sistemas integrados de produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nCole\u00e7\u00e3o de insetos com 24.170 esp\u00e9cies e mais de 100 mil exemplares<br \/>\nEdifica\u00e7\u00f5es gerenciais, de armazenagem, alimenta\u00e7\u00e3o e oficinas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juliana Caldas &#8211; jornalista da Embrapa Cerrados Se hoje o Brasil \u00e9 uma pot\u00eancia agr\u00edcola mundial \u00e9 porque conseguiu estabelecer uma produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel no Cerrado, bioma conhecido pela baixa fertilidade dos solos. Essa conquista deve-se, em grande parte, ao trabalho da Embrapa Cerrados, localizada em Planaltina (DF). 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