{"id":2775,"date":"2016-10-10T10:43:56","date_gmt":"2016-10-10T13:43:56","guid":{"rendered":"https:\/\/baldebranco.com.br?p=2775"},"modified":"2016-10-10T10:43:56","modified_gmt":"2016-10-10T13:43:56","slug":"mercado-de-leite-apos-tempestade-novos-desafios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/mercado-de-leite-apos-tempestade-novos-desafios\/","title":{"rendered":"Mercado de leite: Ap\u00f3s a tempestade, novos desafios"},"content":{"rendered":"<p><em>Custos de produ\u00e7\u00e3o, de m\u00e3o de obra e de energia el\u00e9trica, entre outros, reprimem a produ\u00e7\u00e3o e afetam a competitividade do leite brasileiro, abrindo as portas para a importa\u00e7\u00e3o<\/em><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Glauco Rodrigues Carvalho<\/strong><\/p>\n<p>O ano de 2016 tem sido recheado de incertezas e oscila\u00e7\u00f5es no mercado de leite e insumos, dificultando muito a gest\u00e3o do neg\u00f3cio, seja para o produtor ou para o latic\u00ednio. O pre\u00e7o do milho registrou uma eleva\u00e7\u00e3o substancial devido \u00e0 quebra da safra brasileira de inverno. Essa alta contaminou tamb\u00e9m a soja, e o custo de alimenta\u00e7\u00e3o do rebanho foi elevado a patamares historicamente altos.<\/p>\n<p>Em junho de 2014 eram necess\u00e1rios 36 litros de leite para adquirir 60 kg de ra\u00e7\u00e3o \u00e0 base de milho e soja. Em junho de 2015 foram 35 litros para a mesma quantidade de ra\u00e7\u00e3o. J\u00e1 em junho de 2016, o volume de leite para adquirir a ra\u00e7\u00e3o foi de 47 litros, uma alta de 35% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo m\u00eas do ano anterior. O \u00cdndice de Custo de Produ\u00e7\u00e3o de Leite (ICPLeite\/Embrapa) subiu 20% entre agosto de 2015 e agosto de 2016, puxado pelos concentrados, cuja alta foi de 37% no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>Uma forma simples de ver a rela\u00e7\u00e3o entre pre\u00e7o do leite e insumos \u00e9 analisar o pre\u00e7o do leite deflacionado pelo custo de produ\u00e7\u00e3o. Dessa forma, tem-se uma avalia\u00e7\u00e3o precisa sobre a rela\u00e7\u00e3o de troca (pre\u00e7o versus insumos) no tempo. A figura 1 mostra essa evolu\u00e7\u00e3o com destaque para os seguintes pontos: 1) 2015 foi o pior ano da s\u00e9rie iniciada em 2007; 2) O primeiro semestre de 2016 foi igualmente ruim para o produtor; 3) os dois motivos anteriores explicam boa parte da recente recupera\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os, ou seja, a situa\u00e7\u00e3o de rentabilidade ruim levou a uma forte queda na oferta, que afetou os pre\u00e7os pagos ao produtor.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/baldebranco.com.brwp-content\/uploads\/2016\/10\/figura1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2777\" src=\"https:\/\/baldebranco.com.brwp-content\/uploads\/2016\/10\/figura1.jpg\" alt=\"figura1\" width=\"690\" height=\"558\" \/><\/a>Vale destacar que a deteriora\u00e7\u00e3o na renda do produtor induziu a sa\u00edda de produtores da atividade, seja pela venda\/ abate de animais, aluguel\/venda de propriedade, mudan\u00e7a de atividade, e\/ou retorno da gen\u00e9tica para rebanhos menos especializados em leite, no intuito de aproveitar o bom momento do mercado de bezerros. A dimens\u00e3o dessas mudan\u00e7as \u00e9 ainda desconhecida, mas certamente n\u00e3o \u00e9 desprez\u00edvel. As vendas de s\u00eamen para leite ca\u00edram 27% no primeiro semestre de 2016 ante o mesmo per\u00edodo de 2015, volume equivalente a 625 mil doses.<\/p>\n<p>Diante da eleva\u00e7\u00e3o recente de pre\u00e7os ao produtor, de 50% em oito meses, e do cen\u00e1rio internacional oposto (pre\u00e7os baixos) houve uma piora substancial na balan\u00e7a comercial de leite e derivados. As importa\u00e7\u00f5es de produtos l\u00e1cteos atingiram US$ 397 milh\u00f5es no acumulado do ano at\u00e9 agosto\/2016, sendo 65% desse valor referente a leite em p\u00f3. Com isso, o d\u00e9ficit comercial atingiu US$ 276 milh\u00f5es. As compras s\u00f3 n\u00e3o foram maiores devido \u00e0 queda de produ\u00e7\u00e3o no Uruguai e na Argentina, os principais fornecedores, que atingiu cerca de 13% comparando-se o primeiro semestre de 2016 com o mesmo per\u00edodo de 2015.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a cota de importa\u00e7\u00e3o de leite em p\u00f3 oriundo da Argentina, de 4,3 mil t\/m\u00eas, segurou um pouco a entrada de l\u00e1cteos. Apesar disso, as importa\u00e7\u00f5es atingiram patamares pr\u00f3ximos aos observados em 2012, quando a taxa de c\u00e2mbio era de 1,95 reais\/d\u00f3lar (figura 2). O volume de importa\u00e7\u00e3o brasileiro n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o representativo frente \u00e0 produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, mas suficiente para afetar os pre\u00e7os, que s\u00e3o formados de forma marginal seguindo a lei da oferta e demanda.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/baldebranco.com.brwp-content\/uploads\/2016\/10\/figura2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2779\" src=\"https:\/\/baldebranco.com.brwp-content\/uploads\/2016\/10\/figura2.jpg\" alt=\"figura2\" width=\"690\" height=\"566\" \/><\/a>Com essa ideia em mente \u00e9 que o Governo autorizou a reconstitui\u00e7\u00e3o do leite em p\u00f3 para a produ\u00e7\u00e3o de UHT, nas regi\u00f5es de abrang\u00eancia da Sudene-Superintend\u00eancia do Desenvolvimento do Nordeste, pelo per\u00edodo de um ano. Esqueceram apenas de considerar a sazonalidade da produ\u00e7\u00e3o e pre\u00e7os do leite, j\u00e1 que no segundo semestre \u00e9 natural que os pre\u00e7os recuem, com uma expans\u00e3o da oferta no per\u00edodo das \u00e1guas. O mercado de UHT j\u00e1 tem sinalizado nesta dire\u00e7\u00e3o, com pre\u00e7os pr\u00f3ximos de R$ 2,50 a 3,00 por litro no mercado atacadista paulista.<\/p>\n<p><strong>Leite brasileiro caro e sem competitividade<\/strong><br \/>\nOscila\u00e7\u00f5es de pre\u00e7os \u00e0 parte, uma quest\u00e3o preocupante refere-se \u00e0 alta competitividade das importa\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao pre\u00e7o dom\u00e9stico. Enquanto o pre\u00e7o m\u00e9dio do leite em p\u00f3 no Brasil ficou em US$4.295\/t nos sete primeiros meses do ano, o do importado da Argentina foi de US$ 2.334\/t (tabela 1). Outros fornecedores conseguiram vender a pre\u00e7os igualmente competitivos. Em julho\/2016, o leite em p\u00f3 importado chegou a US$ 2.567\/t, enquanto no mercado brasileiro estava em US$ 5.646 (figura 3). Em junho\/2016, o pre\u00e7o internacional ao produtor por litro foi de US$ 0,26 na Nova Zel\u00e2ndia; US$ 0,24, na Alemanha, e US$ 0,29, na Argentina.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/baldebranco.com.brwp-content\/uploads\/2016\/10\/tabela1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2780\" src=\"https:\/\/baldebranco.com.brwp-content\/uploads\/2016\/10\/tabela1.jpg\" alt=\"tabela1\" width=\"690\" height=\"643\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/baldebranco.com.brwp-content\/uploads\/2016\/10\/figura3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2781\" src=\"https:\/\/baldebranco.com.brwp-content\/uploads\/2016\/10\/figura3.jpg\" alt=\"figura3\" width=\"690\" height=\"581\" \/><\/a>Realmente uma disparidade grande com a realidade atual brasileira. N\u00e3o que os pre\u00e7os l\u00e1 fora estejam rent\u00e1veis, o que de fato n\u00e3o \u00e9 o caso, mas o diferencial entre o pre\u00e7o dom\u00e9stico e o internacional est\u00e1 muito alto. A tend\u00eancia \u00e9 de que esse diferencial se reduza nos pr\u00f3ximos meses, em fun\u00e7\u00e3o do decl\u00ednio sazonal dos pre\u00e7os no Brasil e da recupera\u00e7\u00e3o das cota\u00e7\u00f5es no mercado internacional. Existe um ambiente externo de baixa rentabilidade em v\u00e1rios pa\u00edses induzindo a uma desacelera\u00e7\u00e3o da oferta global.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que essa baixa competitividade dom\u00e9stica tem deixado as exporta\u00e7\u00f5es cada vez mais distantes e aumentado a exclus\u00e3o de produtores. Existe um problema relacionado \u00e0 estrutura fundi\u00e1ria, inefici\u00eancia no processo produtivo e custo Brasil, que tem prejudicado a competitividade brasileira. O setor tem sofrido forte influ\u00eancia negativa relacionada ao custo Brasil, devido a estradas rurais prec\u00e1rias, altos encargos trabalhistas, baixa produtividade da m\u00e3o de obra e altos custos de energia el\u00e9trica.<\/p>\n<p>Tais fatores fazem com que o Pa\u00eds incorra em altos custos em toda a cadeia produtiva. Os custos de capta\u00e7\u00e3o de leite no Brasil s\u00e3o bem superiores aos observados nos EUA (sul da Calif\u00f3rnia), onde a capta\u00e7\u00e3o por litro de leite ficou entre US$ 0,01 e 0,03 para dist\u00e2ncias entre 81 e 283 km, no m\u00eas de outubro\/2015. No Brasil, os custos circulam entre US$ 0,05 e 0,10\/litro, dependendo da dist\u00e2ncia e da capacidade do caminh\u00e3o.<\/p>\n<p>Os gastos previdenci\u00e1rios e tributos representam cerca de 33% do sal\u00e1rio bruto de um funcion\u00e1rio (em alguns casos, mais do que isso), enquanto na Europa esse percentual \u00e9 de 24,5%; nos Estados Unidos, 23,8%, e na Argentina, 17%. Na energia el\u00e9trica, os tributos e encargos setoriais representam cerca de 40% da tarifa, e o Brasil possui a sexta energia mais cara do mundo, segundo levantamentos da CNI-Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que o setor de leite \u00e9 intensivo em m\u00e3o de obra e ainda n\u00e3o conseguiu incorporar o processo de mecaniza\u00e7\u00e3o e o pacote tecnol\u00f3gico que impulsionou o setor de gr\u00e3os. Os produtores que utilizam predominantemente a m\u00e3o de obra familiar s\u00e3o relativamente menos afetados em compara\u00e7\u00e3o com aqueles que ainda n\u00e3o s\u00e3o grandes, mas que precisam contratar m\u00e3o de obra (e ter um folguista) para expandir a produ\u00e7\u00e3o e ganhar em economia de escala.<\/p>\n<p>Esses produtores est\u00e3o tendo s\u00e9rias dificuldades para se manterem na atividade leiteira e, pelo perfil, s\u00e3o atualmente os menos assistidos, pois enfrentam restri\u00e7\u00f5es de acesso ao Pronaf (n\u00e3o s\u00e3o exclusivamente familiares) e de acesso a outras fontes de fomento pelo alto custo do capital e baixo poder de negocia\u00e7\u00e3o. O cooperativismo e o associativismo poderiam ser uma forma de superar essas falhas de mercado, j\u00e1 que o coletivo \u00e9 sempre mais forte que o individual.<\/p>\n<p>________________________________<\/p>\n<p><em>Glauco Rodrigues Carvalho, pesquisador da Embrapa Gado de Leite, de Juiz de Fora-MG.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Custos de produ\u00e7\u00e3o, de m\u00e3o de obra e de energia el\u00e9trica, entre outros, reprimem a produ\u00e7\u00e3o e afetam a competitividade do leite brasileiro, abrindo as portas para a importa\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"content-type":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-2775","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2775","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2775"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2775\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2775"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2775"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2775"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}