{"id":32898,"date":"2026-07-09T07:00:19","date_gmt":"2026-07-09T10:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/baldebranco.com.br\/?p=32898"},"modified":"2026-07-09T07:00:19","modified_gmt":"2026-07-09T10:00:19","slug":"estrategias-do-agro-para-reduzir-dependencia-do-adubo-importado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/estrategias-do-agro-para-reduzir-dependencia-do-adubo-importado\/","title":{"rendered":"Estrat\u00e9gias do agro para reduzir depend\u00eancia do adubo importado"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>Por Fernando Carvalho Oliveira*<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Conforme t\u00eam mostrado de maneira recorrente a imprensa nacional e os ve\u00edculos especializados em agroneg\u00f3cio, as guerras entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia e no Oriente M\u00e9dio escancararam uma vulnerabilidade estrat\u00e9gica do Brasil: nossa enorme depend\u00eancia dos fertilizantes minerais importados. O impacto dos conflitos sobre pre\u00e7os, log\u00edstica e oferta global de insumos agr\u00edcolas elevou custos, aumentou a inseguran\u00e7a no campo e colocou no centro do debate um tema que antes parecia restrito aos especialistas em fertiliza\u00e7\u00e3o do solo. O Pa\u00eds importa cerca de 85% dos fertilizantes minerais para atender \u00e0 demanda do agro. E isso tornou-se um problema de soberania produtiva. N\u00e3o \u00e0 toa, O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), coordenado pelo Minist\u00e9rio da Agricultura e Pecu\u00e1ria e essa depend\u00eancia de 85% para 45% at\u00e9 2050, reconhecendo que o caminho passa pelo est\u00edmulo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o nacional, ao uso de bioinsumos e ao aproveitamento de res\u00edduos org\u00e2nicos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Num pa\u00eds cuja competitividade agr\u00edcola sustenta boa parte da economia, depender t\u00e3o fortemente de insumos vindos de fora significa aceitar um grau perigoso de vulnerabilidade diante de crises internacionais, oscila\u00e7\u00f5es cambiais e tens\u00f5es geopol\u00edticas. O produtor rural percebeu isso rapidamente. E \u00e9 justamente nesse contexto que cresce a busca por solu\u00e7\u00f5es capazes de reduzir a depend\u00eancia dos adubos minerais convencionais importados, especialmente do NPK (nitrog\u00eanio, f\u00f3sforo e pot\u00e1ssio).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O mais interessante \u00e9 que a consci\u00eancia sobre a necessidade de avan\u00e7os n\u00e3o implica a expectativa de substituir completamente os fertilizantes minerais de uma hora para outra, nem de transformar o campo num laborat\u00f3rio de experi\u00eancias. O que est\u00e1 em pauta \u00e9 algo muito mais pragm\u00e1tico e inteligente: a constru\u00e7\u00e3o de sistemas produtivos mais eficientes, resilientes e equilibrados, combinando fertilizantes minerais, bioinsumos, remineralizadores, res\u00edduos org\u00e2nicos, compostagem, rota\u00e7\u00e3o de culturas e manejo biol\u00f3gico dentro de um contexto de agricultura regenerativa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A abordagem referente \u00e0 fertilidade do solo deixou de ser exclusivamente sob o aspecto qu\u00edmico. A l\u00f3gica agora \u00e9 ampliar a efici\u00eancia agron\u00f4mica do sistema como um todo. Em muitas propriedades, produtores j\u00e1 conseguem reduzir parcialmente as doses de nitrog\u00eanio, f\u00f3sforo e pot\u00e1ssio gra\u00e7as ao uso integrado de mat\u00e9ria org\u00e2nica, inoculantes biol\u00f3gicos, manejo de palhada e melhoria da atividade microbiol\u00f3gica do solo. O foco deixou de ser apenas \u201calimentar a planta\u201d e passou a incluir algo muito mais sofisticado: fazer o solo funcionar melhor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Essa talvez seja a mudan\u00e7a mais relevante em curso no agro brasileiro. Durante d\u00e9cadas, o solo foi tratado quase como um mero suporte f\u00edsico da produ\u00e7\u00e3o. Agora, ganha for\u00e7a a compreens\u00e3o de que ele \u00e9 um organismo vivo, complexo e estrat\u00e9gico. Microrganismos, fungos, bact\u00e9rias ben\u00e9ficas, ciclagem de nutrientes, agrega\u00e7\u00e3o e estrutura, capacidade de reten\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, fixa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica de nitrog\u00eanio e solubiliza\u00e7\u00e3o de f\u00f3sforo passaram a integrar o vocabul\u00e1rio cotidiano do produtor. E isso abre espa\u00e7o enorme para solu\u00e7\u00f5es baseadas em compostagem, condicionadores de solo e fertilizantes org\u00e2nicos compostos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A mat\u00e9ria org\u00e2nica, antes vista muitas vezes como tema perif\u00e9rico, tornou-se parte central da estrat\u00e9gia de fertilidade. Afinal, solos biologicamente ativos aumentam a efici\u00eancia dos pr\u00f3prios fertilizantes minerais, reduzem perdas, melhoram a estrutura f\u00edsica, ampliam a capacidade de troca cati\u00f4nica, elevam a reten\u00e7\u00e3o h\u00eddrica e conferem maior estabilidade produtiva ao sistema agr\u00edcola.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Al\u00e9m disso, res\u00edduos agr\u00edcolas e agroindustriais passaram a ser vistos sob uma nova \u00f3tica. O que antes era considerado problema log\u00edstico ou passivo ambiental ganha valor como insumo estrat\u00e9gico. Esterco, cama de frango, vinha\u00e7a, torta de filtro, lodo de esgotos, res\u00edduos org\u00e2nicos urbanos, industriais e agroindustriais ingressam numa nova cadeia de aproveitamento econ\u00f4mico e agron\u00f4mico. A compostagem em larga escala transforma esses materiais em fertilizantes org\u00e2nicos e condicionadores padronizados, seguros e tecnicamente confi\u00e1veis. Esse segmento tem crescido de forma expressiva no Brasil, encontrando na ABISOLO &#8211; Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Ind\u00fastrias de Tecnologia para Produ\u00e7\u00e3o Vegetal, uma entidade setorial que re\u00fane e representa empresas comprometidas com a inova\u00e7\u00e3o, a padroniza\u00e7\u00e3o e a credibilidade t\u00e9cnica desses produtos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o por acaso, cadeias de valor como a da cana-de-a\u00e7\u00facar e da madeira\/celulose despontam como refer\u00eancias importantes nesse movimento. O uso de res\u00edduos da pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o, associado a bioinsumos e manejo biol\u00f3gico, vem permitindo ganhos de efici\u00eancia, redu\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es e menor depend\u00eancia de aduba\u00e7\u00e3o convencional. O mesmo potencial existe em \u00e1reas como as de aves, su\u00ednos, caf\u00e9, frutas e gr\u00e3os.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Entretanto, talvez o aspecto mais maduro dessa transforma\u00e7\u00e3o seja a consci\u00eancia crescente de que n\u00e3o existem solu\u00e7\u00f5es milagrosas. O produtor rural brasileiro continua sendo pragm\u00e1tico. Ele quer independ\u00eancia, mas n\u00e3o aceita risco desnecess\u00e1rio. Testa em pequenas \u00e1reas, compara custos, mede produtividade, avalia estabilidade e toma decis\u00f5es baseadas em resultados. Por isso, o futuro desse mercado pertence a quem entregar evid\u00eancia t\u00e9cnica, regularidade, rastreabilidade, laudos, monitoramento agron\u00f4mico e comprova\u00e7\u00e3o de desempenho em campo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o se trata de contrapor o org\u00e2nico contra o mineral, mas sim de vender um sistema que melhore o solo e aumente a efici\u00eancia da fertiliza\u00e7\u00e3o, contribuindo para reduzir a depend\u00eancia. O diferencial competitivo deixa de ser apenas vender um produto e passa a ser oferecer uma solu\u00e7\u00e3o agron\u00f4mica completa. Diagn\u00f3stico, recomenda\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, acompanhamento, formula\u00e7\u00e3o adequada e demonstra\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de retorno econ\u00f4mico tornam-se t\u00e3o importantes quanto o insumo em si.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O que est\u00e1 em curso no Brasil \u00e9 uma mudan\u00e7a de mentalidade. O Pa\u00eds come\u00e7a a compreender que fertilidade do solo, biologia e reciclagem de nutrientes n\u00e3o s\u00e3o temas acess\u00f3rios da importante agenda ambiental e da sustentabilidade. A rigor, s\u00e3o quest\u00f5es estrat\u00e9gicas para a competitividade do agro, para a seguran\u00e7a produtiva e para a soberania nacional.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Nesse contexto, cresce de modo expressivo o espa\u00e7o para a compostagem, pois ela transforma res\u00edduos locais em insumos estrat\u00e9gicos, com valor agron\u00f4mico e ecol\u00f3gico. Trata-se de um processo relevante para reduzir a depend\u00eancia externa, aumentar a efici\u00eancia do uso dos nutrientes e construir um modelo de produ\u00e7\u00e3o mais resiliente. No presente cen\u00e1rio geopol\u00edtico mundial, \u00e9 decisivo integrar tecnologias capazes de proporcionar mais autonomia, menor risco e melhor desempenho econ\u00f4mico ao produtor rural brasileiro.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>* Fernando Carvalho Oliveira\u00a0<\/strong>\u00e9 doutor em Agronomia, com \u00eanfase em Solos e Nutri\u00e7\u00e3o de Plantas, pela Escola Superior de Agricultura \u201cLuiz de Queiroz\u201d (ESALQ\/USP). Especialista no tratamento de res\u00edduos org\u00e2nicos e economia circular, \u00e9 membro do Conselho Deliberativo da ABISOLO &#8211; Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Ind\u00fastrias de Tecnologia para Produ\u00e7\u00e3o Vegetal e atua como respons\u00e1vel t\u00e9cnico pelos fertilizantes org\u00e2nicos compostos da Tera Nutri\u00e7\u00e3o Vegetal.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conforme t\u00eam mostrado de maneira recorrente a imprensa nacional e os ve\u00edculos especializados em agroneg\u00f3cio, as guerras entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia e no Oriente M\u00e9dio escancararam uma vulnerabilidade estrat\u00e9gica do Brasil:<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":27285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"content-type":"","footnotes":""},"categories":[160,4],"tags":[],"class_list":["post-32898","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analise","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32898","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32898"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32898\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32898"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32898"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32898"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}