{"id":8279,"date":"2019-06-04T13:18:19","date_gmt":"2019-06-04T16:18:19","guid":{"rendered":"https:\/\/baldebranco.com.br?p=8279"},"modified":"2019-06-04T13:18:19","modified_gmt":"2019-06-04T16:18:19","slug":"em-50-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/baldebranco.com.br\/portal\/em-50-anos\/","title":{"rendered":"Em 50 anos"},"content":{"rendered":"<p>No primeiro dia deste m\u00eas foi comemorado o Dia Mundial do Leite, uma data criada pela FAO, a entidade da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas que cuida de assuntos relacionados \u00e0 agricultura e \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o. O prop\u00f3sito foi universalizar uma data tradicional em v\u00e1rios pa\u00edses da Europa, que institu\u00edram dias nacionais de comemora\u00e7\u00e3o visando estimular o consumo de leite e derivados. Nesta data, no mundo todo, \u00f3rg\u00e3os de governo ligados \u00e0 sa\u00fade e nutri\u00e7\u00e3o e as entidades de representa\u00e7\u00e3o de classe promovem campanhas de esclarecimento sobre o valor nutricional do leite, buscando estimular o consumo. Neste ano, n\u00e3o foi diferente. Mas nem sempre foi assim; afinal, faz pouco tempo que \u00e9 poss\u00edvel entre n\u00f3s estimular o consumo deste produto.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria do leite no Brasil permite entender bastante as transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais que ocorreram no nosso pa\u00eds nos \u00faltimos cinquenta anos. Em 1969, o brasileiro consumia, em m\u00e9dia, 79 litros de leite e derivados por ano. No entanto, cerca de nove litros por habitante deste total chegavam \u00e0 mesa de cada brasileiro por meio da importa\u00e7\u00e3o, na forma de leite em p\u00f3, a pre\u00e7os muito baixos, pois eram subsidiados, vindos da Europa.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m havia leite que chegava por meio de programas de doa\u00e7\u00e3o do Governo Americano para programas sociais. Quando eu era pequeno, na faixa et\u00e1ria de dez anos, eu tomava leite na minha escola, doado pelos americanos. Nestes cinquenta anos, todavia, a popula\u00e7\u00e3o brasileira mais do que dobrou (cresceu em 133%), o consumo por habitante dobrou e as crian\u00e7as em escolas brasileiras n\u00e3o mais precisam tomar leite americano ou europeu.<\/p>\n<p>Em cinquenta anos, outras mudan\u00e7as ocorreram. Naquela \u00e9poca, a principal regi\u00e3o produtora de leite era a Zona da Mata de Minas Gerais, que produzia cerca de 4% da produ\u00e7\u00e3o total do Brasil. Se esta propor\u00e7\u00e3o tivesse se mantido, a Zona da Mata produziria hoje mais do que o Estado de S\u00e3o Paulo e perderia posi\u00e7\u00e3o apenas para Minas Gerais, Goi\u00e1s e os tr\u00eas estados do Sul. E teria uma produ\u00e7\u00e3o equivalente \u00e0 do Uruguai. Mas hoje o cen\u00e1rio \u00e9 outro&#8230; Em 50 anos o leite e toda a agricultura brasileira migraram para o ent\u00e3o imprest\u00e1vel bioma do Cerrado.<\/p>\n<p>Com a tecnologia gerada pela Embrapa e universidades, que fez do Brasil o \u00fanico pa\u00eds agr\u00edcola no mundo tropical, Goi\u00e1s despontou como o Estado do Leite nos anos noventa, mas perdeu esta condi\u00e7\u00e3o d\u00e9cadas depois, para os tr\u00eas estados da Regi\u00e3o Sul, por fatores extra porteira.<\/p>\n<p>H\u00e1 cinquenta anos o desafio era fazer uma vaca manter uma m\u00e9dia de 6 litros de leite produzidos por dia. Diziam que o rebanho brasileiro era de dupla aptid\u00e3o, ou seja, com condi\u00e7\u00f5es de produzir leite e carne. Que nada! Na verdade, neste tipo de sistema de produ\u00e7\u00e3o a vaca comia o que tinha de verde dispon\u00edvel e um pouco de farelo de trigo importado, com pre\u00e7os absurdamente subsidiados. J\u00e1 os pre\u00e7os ao produtor e consumidor eram muito elevados, dada a escassez de leite.<\/p>\n<p>Afinal, o que d\u00e1 valor a um bem n\u00e3o \u00e9 a sua utilidade, mas a sua escassez, ensina a teoria econ\u00f4mica. Tomar leite era caro e raro para a maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria de latic\u00ednios era muito pouco diversificada e explorava mercados de amplitude regionais. Predominavam as cooperativas, que detinham 70% do mercado, principalmente nos estados do Rio Grande do Sul, S\u00e3o Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, em que grandes centrais cooperativistas lideravam. J\u00e1 o Nordeste era dependente do leite que vinha dos estados do Sul e do Sudeste.<\/p>\n<p>Numa \u00e9poca em que o Brasil n\u00e3o tinha caminh\u00f5es especializados em transporte de frios, o leite em p\u00f3 era para as fam\u00edlias a \u00fanica forma de ingerir leite fluido. Somente nos anos oitenta o leite naturalmente fluido chegou \u00e0s mesas da fam\u00edlia nordestina, quando o tipo \u201clonga vida\u201d encurtou dist\u00e2ncias e tornou pr\u00f3ximo Goi\u00e1s do Cear\u00e1, e o Rio Grande do Sul, do Amazonas. Rond\u00f4nia, o Estado que hoje \u00e9 importante no leite e no caf\u00e9, ainda n\u00e3o tinha despertado para estas saborosas e rent\u00e1veis voca\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em cinquenta anos, fizemos uma transforma\u00e7\u00e3o radical: sepultamos a express\u00e3o \u201ctirador de leite\u201d, acabamos com o com\u00e9rcio formal da carrocinha de leite, criamos ra\u00e7as genuinamente brasileiras, como a Gir Leiteiro e a Girolanda; criamos variedades de forrageiras totalmente adaptadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, sendo que o Capia\u00e7u \u00e9 um exemplo que confirma o sucesso do programa de melhoramento vegetal da Embrapa.<\/p>\n<p>Nossas empresas de latic\u00ednios se tornaram nacionais e desenvolvemos uma das cadeias log\u00edsticas de frios das mais sofisticadas do mundo. Conseguimos nos inserir no ambiente da gen\u00f4mica e melhoramos a acur\u00e1cia preditiva do que se refere \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de os nossos touros serem portadores de ganhos de produtividade em suas descendentes. E somos a cadeia produtiva com o ecossistema de inova\u00e7\u00e3o digital mais consolidado do agroneg\u00f3cio brasileiro.<\/p>\n<p>Transformamos quase tudo. Falta, ainda, vencer dois desafios: melhorar a qualidade do leite e a gest\u00e3o. Sem isso, n\u00e3o seremos eficientes, nem competitivos. Sem isso, n\u00e3o mudaremos de patamar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No primeiro dia deste m\u00eas foi comemorado o Dia Mundial do Leite, uma data criada pela FAO, a entidade da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas que cuida de assuntos relacionados \u00e0 agricultura e \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o. 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