Produtores de leite encaram começo de ano desafiador, mas mercado aponta sinais de recuperação nos próximos meses

Baixa remuneração, clima adverso e importação pressionam atividade, enquanto produtores aguardam recuperação gradual dos preços no outono

Por Arthur Chagas – Comunicação Gadolando

Os primeiros meses de 2026 foram marcados por remuneração abaixo do esperado para os produtores de leite no Rio Grande do Sul. Em muitos casos, o valor pago pelo litro ficou inferior ao próprio custo da atividade. A avaliação é do presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), Marcos Tang, ao analisar o comportamento do mercado no início do ano e as perspectivas para o setor.

Segundo Tang, janeiro e fevereiro apresentaram um cenário especialmente difícil para as propriedades leiteiras. Conforme o dirigente, a situação se tornou insustentável em diversas fazendas. “Muitos produtores estão recebendo menos pelo litro entregue ao laticínio do que gastam para produzi-lo. Isso obriga o produtor a buscar alternativas para manter a atividade, como vender parte do rebanho ou recorrer a empréstimos para cobrir despesas e, consequentemente, acumulando dívidas”, explica.

Embora a baixa remuneração seja uma realidade nacional, Tang ressalta que, no Rio Grande do Sul, o problema é agravado por fatores climáticos que vêm afetando o setor nos últimos anos. O Estado enfrentou uma sequência de estiagens, intercaladas com períodos de enchentes, o que dificultou a produção de alimento para os animais.

Tang enfatiza que a alimentação do rebanho é um dos principais componentes do custo de produção do leite. “Quando o produtor não consegue produzir pastagem ou silagem suficientes, precisa comprar insumos no mercado, o que reduz ainda mais a margem de lucro da atividade”, explica.

Apesar do cenário negativo no início do ano, o presidente da Gadolando observa sinais de estabilização nos preços. Em fevereiro, segundo ele, a queda nos valores pagos ao produtor já foi menor e, no início de março, há indicação de um leve aumento. “A expectativa é de que a reação se consolide entre abril e junho, quando o preço do leite deve subir gradualmente, impulsionado por fatores de mercado e também por mudanças sazonais no consumo”, projeta.

Entre os fatores mencionados pelo dirigente está o retorno das aulas, que tende a elevar a demanda por produtos lácteos, além da chegada de períodos mais frios do ano. “Outono e inverno normalmente favorecem o consumo de leite e derivados, o que contribui para uma recuperação gradual dos preços”, afirma.

Tang lembra que o comportamento do mercado costuma ser cíclico, com preços mais fracos entre novembro e janeiro e recuperação ao longo do outono. “No entanto, em 2025 esse padrão não se confirmou. Mesmo durante o inverno, período que tradicionalmente garante melhor remuneração ao produtor, os valores continuaram em queda”, aponta.

Para o presidente da Gadolando, esse cenário comprometeu a capacidade financeira das propriedades. “Esses meses de inverno são quando o produtor deveria conseguir formar um caixa para enfrentar o restante do ano. Quando isso não acontece, toda a sustentabilidade da atividade fica comprometida”, destaca.

Outro fator que pode contribuir para reduzir custos neste período é o clima mais ameno. “Com temperaturas mais baixas, diminui o estresse térmico das vacas, o que melhora a produção. Além disso, após a colheita de grãos, muitos produtores conseguem implantar pastagens de inverno, reduzindo gastos com alimentação”, lembra.

Mesmo com essas perspectivas, Tang alerta que o setor segue pressionado por fatores externos, especialmente pelas importações de lácteos. Segundo ele, a entrada de produtos, principalmente da Argentina e do Uruguai, tem impactado negativamente o mercado interno. “Temos pedido medidas do governo para conter temporariamente essas importações e também a aplicação de instrumentos como o antidumping, que está em análise. A entrada desenfreada de leite e derivados tem prejudicado enormemente o produtor brasileiro”, afirma.

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