Mudanças climáticas e resistência parasitária exigem novas estratégias no controle de bernes e bicheiras na pecuária

Aumento das temperaturas e uso indiscriminado de inseticidas tradicionais desafiam a produtividade dos rebanhos. Especialista alerta para a importância do manejo integrado e da inovação no campo

A intensificação das mudanças climáticas e o aumento alarmante da resistência aos inseticidas tradicionais estão transformando o controle de ectoparasitas em um dos maiores desafios estratégicos para a pecuária latino-americana. Moscas causadoras de miíases estão expandindo sua presença geográfica e ampliando seus ciclos reprodutivos ao longo do ano, gerando um alerta sanitário e econômico para os produtores rurais.
 

De acordo com dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), as miíases figuram entre as principais causas de perdas produtivas na pecuária. O impacto é direto: redução no ganho de peso, queda na produção de leite, depreciação da qualidade do couro e, em casos de infestações severas por bicheiras, a morte dos animais. Além do prejuízo no campo, as espécies possuem relevância zoonótica e podem afetar humanos, reforçando a importância do controle sob a perspectiva da saúde interconectada.
 

O Desafio do Clima e da Resistência aos Tratamentos
O aquecimento global, marcado por alterações no regime de chuvas e eventos extremos, criou condições ideais para o desenvolvimento larval dessas moscas em regiões antes consideradas marginais. Paralelamente, o uso repetitivo dos principais ativos amplamente empregados tem provocado falhas no controle a campo.

pedro carvalho boehringer“O controle de parasitas deixou de ser apenas uma questão operacional para se tornar uma decisão estratégica para a produtividade e a sustentabilidade da pecuária. O avanço da resistência parasitária reforça a necessidade de adoção de soluções cada vez mais eficazes e de programas de manejo bem estruturados. Nesse cenário, é fundamental ampliar o investimento em inovação e fortalecer a conscientização sobre o uso racional das ferramentas disponíveis, garantindo a preservação da eficácia dos tratamentos e melhores resultados no longo prazo.”, explica Pedro Carvalho (foto), diretor de grandes animais da Boehringer Ingelheim.
 

Manejo Estratégico: Abordagens Diferentes para Ameaças Distintas
O controle eficaz exige rigor técnico. No caso da bicheira, a prevenção imediata em bezerros recém-nascidos e após procedimentos de manejo que gerem feridas, como castração, é inegociável. Inspeções semanais de todo o rebanho e a aplicação de produtos na dosagem exata recomendada em bula são cruciais para evitar a sobrevivência das larvas e a progressão fatal da infestação. Já para o berne, o controle precisa ser coletivo. “A presença de poucos animais acometidos já indica a circulação ativa do berne no ambiente. Diferente de outros parasitas, não há alternativas não químicas eficazes, o que justifica o tratamento de todo o lote assim que os primeiros sinais aparecem”, complementa Carvalho.
 

Diante da pressão da seleção e da resistência estabelecida, o setor de saúde animal foca agora na importância da chegada de novas classes terapêuticas ao mercado. Contudo, os especialistas reforçam que a inovação tecnológica deve vir acompanhada de um manejo criterioso no campo. A principal recomendação técnica para retardar a resistência é a rotação inteligente de inseticidas. Isso significa alternar classes químicas comprovadamente eficazes ao longo das estações, garantindo a eliminação completa das larvas, protegendo a segurança alimentar e minimizando o impacto ambiental.

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