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COLUNA DO CEPEA

Natália Grigol

Pesquisadora do Cepea

Des­de o iní­cio de 2020, o pre­ço do lei­te no cam­po apre­sen­ta alta acu­mu­la­da real de 42,9% na “Média Bra­sil”. Esse avan­ço foi acen­tu­a­do entre os meses de junho e agos­to, quan­do os valo­res subi­ram 40,1% — nes­se perío­do, a valo­ri­za­ção do lei­te ao pro­du­tor este­ve atre­la­da à mai­or com­pe­ti­ção entre as indús­tri­as de lati­cí­ni­os para garan­tir a com­pra de maté­ria-pri­ma

Preço ao produtor atinge recorde real em agosto/2020

O pre­ço do lei­te cap­ta­do em julho e pago ao pro­du­tor em agos­to regis­trou alta de 10,5% fren­te ao mês ante­ri­or, atin­gin­do R$1,9426/litro na “Média Bra­sil” líqui­da, novo recor­de real da série his­tó­ri­ca do Cepea. Antes dis­so, o mai­or valor regis­tra­do era de R$ 1,7815/litro, em agosto/16, em ter­mos reais (dados defla­ci­o­na­dos pelo IPCA de julho/20).

Des­de o iní­cio de 2020, o pre­ço do lei­te no cam­po apre­sen­ta alta acu­mu­la­da real de 42,9% na “Média Bra­sil”. Esse avan­ço foi acen­tu­a­do entre os meses de junho e agos­to, quan­do os valo­res subi­ram 40,1% — nes­se perío­do, a valo­ri­za­ção do lei­te ao pro­du­tor este­ve atre­la­da à mai­or com­pe­ti­ção entre as indús­tri­as de lati­cí­ni­os para garan­tir a com­pra de maté­ria-pri­ma. A con­cor­rên­cia acir­ra­da, por sua vez, está rela­ci­o­na­da à neces­si­da­de de se refa­zer esto­ques de deri­va­dos lác­te­os, em um momen­to de ofer­ta limi­ta­da no cam­po e de recu­pe­ra­ção da deman­da.

É impor­tan­te res­sal­tar que exis­te uma ten­dên­cia típi­ca de aumen­to das cota­ções ao pro­du­tor entre mar­ço e agos­to, devi­do à sazo­na­li­da­de da pro­du­ção. Nes­se perío­do, a cap­ta­ção de lei­te é pre­ju­di­ca­da pela bai­xa dis­po­ni­bi­li­da­de de pas­ta­gens, em decor­rên­cia da dimi­nui­ção das chu­vas no Sudes­te e no Cen­tro-Oes­te. No entan­to, nes­te ano, a situ­a­ção foi agra­va­da por três fato­res: pelas con­di­ções cli­má­ti­cas mais seve­ras, que impac­ta­ram a reto­ma­da da pro­du­ção lei­tei­ra (com des­ta­que para a esti­a­gem no Sul do País), pelo aumen­to nos cus­tos de pro­du­ção em rela­ção ao ano ante­ri­or e pelos efei­tos enca­de­a­dos asso­ci­a­dos à pan­de­mia de covid-19.

Nor­mal­men­te, as indús­tri­as empe­nham esfor­ços em com­por esto­ques antes de abril, pre­ven­do que a cap­ta­ção caia nos meses pos­te­ri­o­res. Con­tu­do, em abril des­te ano, as pers­pec­ti­vas nega­ti­vas sobre o con­su­mo no médio e lon­go pra­zos dian­te da pan­de­mia aumen­ta­ram o nível de incer­te­zas e fize­ram com que indús­tri­as dimi­nuís­sem seus inves­ti­men­tos em esto­ques.

No entan­to, o con­su­mo de lác­te­os se recu­pe­rou em maio e até se aque­ceu nos meses pos­te­ri­o­res, anco­ra­do nos pro­gra­mas de auxí­lio emer­gen­ci­al, con­tex­to que redu­ziu ain­da mais os esto­ques. Dian­te dis­so, os pre­ços dos deri­va­dos lác­te­os segui­ram avan­çan­do em julho e tam­bém na pri­mei­ra quin­ze­na de agos­to. O mai­or des­ta­que é o quei­jo muça­re­la, deri­va­do que regis­trou pre­ço médio men­sal recor­de em julho – e que deve ser supe­ra­do tam­bém em agos­to.

A com­pe­ti­ção pela com­pra da maté­ria-pri­ma e a bai­xa dis­po­ni­bi­li­da­de de lei­te resul­ta­ram em aumen­to das cota­ções no cam­po. O valor do lei­te spot (nego­ci­a­do entre indús­tri­as) em Minas Gerais sal­tou de R$ 2,24/litro na pri­mei­ra quin­ze­na de julho para R$ 2,75 na segun­da quin­ze­na de agos­to, expres­si­va ele­va­ção de 22,6%. A média men­sal de agos­to, de R$ 2,66/litro, supe­rou em 12,2% a de julho e em sig­ni­fi­ca­ti­vos 68,1% a de agos­to de 2019, em ter­mos reais – esse é tam­bém o mai­or valor da série his­tó­ri­ca do Cepea, ini­ci­a­da em julho em 2004.

Seria cor­re­to com­pre­en­der que, com pre­ços mais altos, a ampli­a­ção do for­ne­ci­men­to de con­cen­tra­do e sila­gem seria esti­mu­la­da, até que o volu­me de lei­te ofer­ta­do se equi­li­bre à deman­da – o que, por sua vez, pode­ria segu­rar o avan­ço nos valo­res do lei­te. De fato, essa res­pos­ta da pro­du­ção tem ocor­ri­do – con­for­me apon­tam os dados do ICAP‑L, hou­ve alta de 5,9% na cap­ta­ção de junho para julho. Entre­tan­to, ao aumen­to da ofer­ta tem ocor­ri­do de for­ma mais len­ta nes­te momen­to, devi­do aos efei­tos desen­ca­de­a­dos pelas incer­te­zas no iní­cio da pan­de­mia. A atí­pi­ca que­da de pre­ços ao pro­du­tor em maio, a pró­pria defa­sa­gem tem­po­ral no repas­se das con­di­ções de mer­ca­do ao pro­du­tor (carac­te­rís­ti­ca da cadeia do lei­te) e o aumen­to dos cus­tos de pro­du­ção em 2020 dei­xa­ram pecu­a­ris­tas mais cau­te­lo­sos – mui­tos seca­ram as vacas ou dimi­nuí­ram os inves­ti­men­tos. Essas ações difi­cul­ta­ram a reto­ma­da do cres­ci­men­to da pro­du­ção, já que a ati­vi­da­de lei­tei­ra é diá­ria e seu pla­ne­ja­men­to tem efei­tos tan­to ime­di­a­tos quan­to nos meses pos­te­ri­o­res.

  

INDI­CA­DOR PRE­ÇO DO LEI­TE AO PRO­DU­TOR CEPEA

  

PRE­ÇOS RECE­BI­DOS EM AGOS­TO PELO VOLU­ME CAP­TA­DO EM JULHO

  

Pre­ços líqui­dos — não con­tém fre­te e impos­tos. Valo­res nomi­nais.

         
 

BA

GO

MG

SP

PR

SC

RS

BRA­SIL

jun/20

1,4309

1,5372

1,5264

1,4624

1,4984

1,4818

1,4807

1,5135

jul/20

1,6384

1,8138

1,7706

1,6820

1,7130

1,7416

1,7132

1,7573

ago/20

1,8530

2,0565

1,9492

1,8449

1,9024

1,9118

1,8545

1,9426

vari­a­ção men­sal

13,10%

13,38%

10,09%

9,69%

11,06%

9,77%

8,25%

10,54%

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