Temporais que atingem o Rio Grande do Sul interrompem estradas, dificultam a coleta de leite, comprometem o manejo dos rebanhos e reacendem a preocupação do setor com a resiliência da atividade diante da maior frequência de eventos climáticos extremos
Da redação
As fortes chuvas que atingem o Rio Grande do Sul nos últimos dias voltaram a colocar a agropecuária em estado de atenção. Com alerta vermelho para acumulados de chuva emitido pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e diversos municípios registrando alagamentos, transbordamento de rios e bloqueios em rodovias, produtores rurais enfrentam mais um período de incertezas em uma atividade que ainda carrega as marcas das enchentes históricas de 2024. As previsões indicam que as instabilidades devem persistir em parte do Estado, elevando o risco de novos transtornos.
Embora o levantamento oficial dos prejuízos ainda esteja em andamento, técnicos e entidades do setor alertam que a pecuária leiteira tende a ser uma das atividades mais sensíveis aos impactos provocados pelo excesso de chuvas. Isso porque a produção de leite depende de uma rotina diária que não pode ser interrompida. Qualquer dificuldade no acesso às propriedades, atraso na coleta ou limitação no fornecimento de insumos repercute diretamente na produtividade e na qualidade do leite.
Em muitas regiões produtoras, o primeiro desafio é garantir o deslocamento das equipes e dos caminhões responsáveis pela coleta. Rodovias com bloqueios totais ou parciais dificultam a logística, aumentando o tempo de transporte e elevando os custos operacionais. Em situações mais severas, o leite pode até deixar de ser recolhido, obrigando o produtor a descartar parte da produção.
Dentro das propriedades, o excesso de umidade compromete o bem-estar dos animais. Áreas de circulação tornam-se encharcadas, aumentando a incidência de lama nos acessos às salas de ordenha e nos piquetes. Esse ambiente favorece problemas sanitários, como doenças de casco, dermatites e maior risco de mastite ambiental, além de elevar o estresse dos animais.
Outro reflexo imediato ocorre sobre a alimentação dos rebanhos. Pastagens excessivamente úmidas sofrem com pisoteio, redução do crescimento e perda de qualidade nutricional. Ao mesmo tempo, a dificuldade para colher forragens e transportar alimentos pode obrigar os produtores a recorrerem mais intensamente aos estoques de silagem e concentrados, elevando os custos de produção.
Os impactos também alcançam a infraestrutura das propriedades. Cercas danificadas, erosões, estradas internas destruídas, sistemas de drenagem comprometidos e instalações alagadas exigem investimentos extras justamente em um período em que muitos produtores ainda trabalham para recuperar a capacidade financeira após eventos climáticos anteriores.
Especialistas destacam que o problema vai além dos prejuízos imediatos. A repetição de eventos extremos evidencia a necessidade de investimentos permanentes em adaptação das propriedades rurais. Sistemas eficientes de drenagem, estradas internas bem planejadas, áreas de escape para os animais, armazenamento estratégico de alimentos, diversificação das fontes de água e melhorias na infraestrutura de ordenha tornam-se medidas cada vez mais importantes para reduzir perdas futuras.
Na cadeia do leite, os efeitos também podem chegar ao consumidor. Se as dificuldades logísticas persistirem por vários dias, há possibilidade de redução temporária na oferta de matéria-prima para as indústrias, especialmente nas regiões mais afetadas. Ainda é cedo para mensurar eventuais impactos sobre os preços, mas o setor acompanha a evolução das chuvas com atenção.
O momento é especialmente delicado porque coincide com uma fase de recuperação da atividade leiteira gaúcha. O Conseleite/RS havia projetado valorização do leite em julho, reflexo da melhora do mercado. Entretanto, os eventos climáticos podem comprometer parte desse cenário, dependendo da intensidade dos danos registrados nas principais bacias leiteiras do Estado.
Enquanto a Defesa Civil monitora a evolução das precipitações e mantém alertas para diferentes regiões do Estado, produtores seguem mobilizados para proteger os animais, preservar a infraestrutura das propriedades e minimizar os impactos sobre uma atividade que depende da regularidade da produção todos os dias do ano.
Cinco impactos imediatos das chuvas na pecuária leiteira
• Dificuldade de acesso às propriedades e atrasos na coleta de leite.
• Maior incidência de mastite e doenças de casco devido ao excesso de lama.
• Redução da qualidade das pastagens e aumento do uso de alimentos conservados.
• Danos à infraestrutura, como estradas internas, cercas e instalações.
• Elevação dos custos de produção e risco de perdas econômicas ao longo da cadeia.
O desafio da adaptação climática
A recorrência de eventos extremos reforça a necessidade de tornar as propriedades mais resilientes. Entre as principais estratégias estão a construção de sistemas eficientes de drenagem, melhorias nas estradas internas, armazenamento de alimentos para períodos críticos, proteção de nascentes, planejamento de áreas de escape para os animais e investimentos em estruturas que reduzam os impactos das chuvas intensas sobre o manejo diário dos rebanhos.