Déficit alarmante no campo: 35 milhões de brasileiros vivem sem água e esgoto, alerta Seminário Internacional

Segurança hídrica, saúde pública e novas tecnologias também estiveram entre os temas debatidos no evento, que reuniu especialistas do Brasil e do exterior na sede da Cetesb

Cerca de 35 milhões de brasileiros que vivem em áreas rurais ainda não têm acesso ao saneamento básico — um dos principais desafios do país nas áreas de infraestrutura e saúde pública. O dado foi destaque no 1º Seminário Internacional da Água, promovido pela Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), entre os dias 23 e 25 de março, no auditório da sede da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). A iniciativa contou com o apoio da Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp) e integrou a programação da Semana do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março.
 

Nesse contexto, a secretária da Semil, Natália Resende, que abriu o evento nesta quarta-feira (25), destacou a relevância dessa e de outras pautas debatidas ao longo dos dois dias, com ênfase no saneamento rural e na universalização dos serviços. “São temas prioritários na agenda do Estado de São Paulo. Universalizar é incluir todas as áreas, inclusive as rurais e as regiões mais vulneráveis, como favelas e palafitas. Precisamos avançar para garantir o acesso ao saneamento em locais de maior dificuldade”, afirmou.
 

Ao longo da programação, o evento reuniu especialistas do Brasil e de países como Estados Unidos, Reino Unido e Japão para debater os desafios contemporâneos do saneamento e dos recursos hídricos.
 

Tecnologia e educação ambiental em foco
 

Dando continuidade às discussões, o segundo dia do seminário foi dedicado a temas como inovação, reuso da água e educação ambiental. Especialistas de instituições como SP Águas, Sabesp, USP, Unicef e organizações internacionais participaram das discussões.
 

Nesse eixo, a mesa sobre sustentabilidade hídrica destacou a importância da integração entre tecnologia e governança. “É fundamental pensar e agir a partir dessas duas frentes”, afirmou o mediador Eduardo Mazolenis, gerente de projetos especiais da Cetesb.
 

Entre os destaques, o professor José Carlos Mierzwa, da Escola Politécnica da USP, abordou soluções como o reuso da água. “A Região Metropolitana de São Paulo enfrenta desafios históricos, mas inovações como o reuso têm papel importante na adaptação e na redução de crises hídricas”, explicou.
 

Ainda no campo da gestão, o diretor da SP Águas, Nelson Lima, destacou o papel da agência na regulação e na administração dos recursos hídricos. “Somos responsáveis por regular um bem público essencial. A segurança hídrica está no centro da nossa atuação, tanto em cenários de escassez quanto de abundância”, afirmou.
 

Na mesma linha, a Sabesp apresentou iniciativas voltadas à redução de perdas de água, incluindo tecnologias para detecção de vazamentos, controle de pressão e manutenção preventiva. A companhia também prevê a implantação de um Centro Operacional Integrado (COI), que deve ampliar a eficiência da gestão do sistema.

No eixo de educação ambiental, foram apresentados projetos voltados à formação de estudantes da rede pública, com foco em práticas de conservação, como a recuperação de córregos. Também participaram representantes de instituições como Unicef, Ensina Brasil e Universidade de São Paulo.
 

Balanço do 1° dia
 

Já no primeiro dia de evento, realizado na segunda-feira (23), o tema saneamento rural reforçou a necessidade de ampliar políticas públicas para alcançar a universalização prevista no Novo Marco Legal do Saneamento.

“Hoje temos como parâmetro o marco regulatório, que estabelece metas claras para que o saneamento alcance toda a população, tanto em áreas urbanas quanto rurais, com 99% de acesso à água potável e 90% à coleta e tratamento de esgoto”, explicou a diretora de Saneamento Básico da Semil, Esther Feche, que mediou o painel.

Nesse cenário, a desestatização da Sabesp, concluída em julho de 2024, foi apresentada como um dos instrumentos para ampliar o atendimento, especialmente em áreas rurais. O modelo é considerado referência no país e inclui, entre suas diretrizes, a universalização do acesso também para populações que ainda não contam com os serviços. Segundo dados apresentados durante o evento, cerca de 1,2 milhão de pessoas vivem em áreas rurais no estado de São Paulo.
 

Antes da mudança, a companhia não atuava em áreas informais ou de maior vulnerabilidade social devido às limitações contratuais. Com a ampliação do escopo, essas regiões passaram a ser incorporadas ao planejamento, com previsão de novos investimentos em infraestrutura para garantir o acesso à água potável e à coleta e tratamento de esgoto.
 

Reforçando a dimensão do desafio, o representante da Sabesp, Dionisio Santa’Ana Pereira, destacou que, de acordo com o último censo, mais de 725 mil domicílios atendidos pela companhia estão localizados em áreas rurais. “Levar saneamento ao campo é promover impactos positivos não só na qualidade de vida das pessoas, mas também no meio ambiente. É fundamental uma abordagem integrada”, afirmou.
 

A programação contou ainda com participação internacional. A professora Pilar Fernandez-Ibanez, da Ulster University, no Reino Unido, apresentou experiências do programa SafeWater, voltado ao fornecimento de água potável em comunidades rurais da Colômbia e do México com soluções de baixo custo.
 

O evento também trouxe a perspectiva regulatória, com a participação de Sérgio Bernardes, da Arsesp, que abordou os avanços e desafios da regulação do saneamento rural. Já a representante do Ministério das Cidades, Fernanda Rodrigues Morais, apresentou o panorama nacional do setor.
 

Encerrando o primeiro dia, os debates abordaram a relação entre água, saúde e sustentabilidade, incluindo temas como segurança alimentar, nutrição, saúde pública, saúde ambiental e gestão de emergências. Diretamente da Universidade de Cambridge, o professor Sumantra Ray participou de forma virtual e destacou a importância da água para o funcionamento do organismo. “A água não é apenas o que bebemos, mas também essencial para a alimentação e para a saúde. Sua relação com a nutrição é intrínseca”, afirmou.
 

Na sequência, a promotora Alexandra Facciolli, do Ministério Público do Estado de São Paulo e integrante do Conselho de Recursos Hídricos (CRH), ressaltou o papel do poder público na garantia da segurança hídrica. Representantes da Universidade de São Paulo, como a professora Maria Tereza Pepe Razzolini e o professor Wanderley Paganini, também contribuíram para o debate, abordando os impactos da água na saúde ambiental e na gestão de emergências.
 

Para conferir todas as apresentações na íntegra, basta acessar o canal da Semil no YouTube

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