Realizado em 26 de junho, na fazenda Nata da Serra, localizada em Serra Negra (SP), colocou em evidência um modelo que combina pasto bem manejado, genética adaptada, tecnologia e eficiência econômica. A propriedade, conduzida pelo agrônomo Ricardo Schiavinato, recebeu técnicos em treinamento para difundir conceitos a serem replicados em São Paulo.
Por Claudio Menezes
A produção de leite a pasto voltou ao centro do debate técnico durante o Dia de Campo Produção de Leite a Pasto, realizado em 26 de junho, na Fazenda Nata da Serra, em Serra Negra. O encontro reuniu 130 pessoas, entre produtores, técnicos, estudantes e pesquisadores, e foi feito pela CATI Leite, em parceria com a Embrapa Pecuária Sudeste e a própria fazenda. O evento mostrou como tecnologias acessíveis, aplicadas com planejamento, podem melhorar produção, rentabilidade e permanência do produtor na atividade.
A Nata da Serra, conduzida pelo engenheiro agrônomo Ricardo Schiavinato, é referência do Balde Cheio em São Paulo. A propriedade mantém relação histórica com a Embrapa e se consolidou como exemplo de sistema orgânico de produção de leite a pasto, com transformação do leite em queijos, manteiga, iogurte e requeijão.
Para Schiavinato, a escolha da fazenda reforça uma trajetória de mais de duas décadas. “A Nata da Serra é parceira da Embrapa há mais de 20 anos, faz parte do projeto Balde Cheio e é uma propriedade assistida. Acredito que seja a propriedade mais longeva dentro do projeto até hoje”, afirma.
Segundo ele, o fato de a fazenda ser orgânica não limita o sistema como referência. Ao contrário, mostra que o leite a pasto pode ser adaptado a diferentes realidades. “Apesar de ser uma propriedade orgânica, com algumas questões com relação a esse modelo de produção, principalmente na questão de insumos, o conceito de produção de leite a pasto é muito forte dentro da Nata da Serra”, explica.

Modelo – Para o produtor, o Brasil tem condições naturais favoráveis a esse modelo, desde que o pasto seja tratado como lavoura e o sistema seja conduzido com técnica. “Eu acredito que esse é o caminho para a produção de leite do nosso país, porque somos um país tropical e temos uma característica para esse tipo de produção. As gramíneas tropicais são extremamente produtivas”, destaca. Na avaliação do produtor, o modelo é também caminho econômico para pequenas e médias propriedades.

O dia de campo foi dividido em seis estações: a primeira apresentou a história da Nata da Serra, relatada pelo próprio Ricardo Schiavinato, mostrando a evolução da propriedade e sua relação com o Balde Cheio. As demais trataram de genética, semeadura e pastejo de inverno, manejo de pastagens, controle biológico, aplicação de produtos via drone e qualidade do leite, com a participação de técnicos, pesquisadores e instituições parceiras. A proposta foi permitir que os participantes visualizassem as práticas que sustentam o resultado produtivo.
“Fizemos essas estações para que os produtores pudessem visualizar toda a tecnologia utilizada dentro da propriedade para favorecer a produção e ter resultado econômico. Isso é o mais importante: os produtores poderem realmente viver da produção de leite”, resume Schiavinato. A fala sintetiza um fundamento do Balde Cheio: tecnologia precisa melhorar gestão, organizar o sistema e gerar renda.
Tecnologia, eficiência e integração – A gestora do Projeto Estadual CATI Leite, a zootecnista Ana Paula Roque (foto), destaca que a ação em Serra Negra é resultado dessa parceria entre CATI, Embrapa Pecuária Sudeste e Fazenda Nata da Serra, que é antiga.
Segundo ela, o objetivo foi mostrar tecnologias que levaram a fazenda à eficiência e transformar esse aprendizado em referência. “A importância de um evento como esse é mostrar que tecnologias simples, que podem ser implantadas na maioria das fazendas, melhoram a eficiência e principalmente a rentabilidade da pecuária leiteira”, afirma.
Na mesma semana do dia de campo, a fazenda recebeu também um curso com 40 técnicos da equipe do CATI Leite de todo o Estado. O treinamento aprofundou conceitos de produção de leite a pasto e reforçou a retomada da assistência técnica estruturada para a cadeia leiteira paulista. “Esses técnicos vão replicar esse conhecimento nas regiões onde atuam, levando informação para produtores em todo o Estado”, observa Ana Paula.
A programação técnica contemplou manejo de pastagens, controle biológico em áreas de pasto, recursos genéticos voltados à produção de leite a pasto, semeadura em pastagens e qualidade do leite. O encerramento contou com a Caravana Giro do Leite, do Instituto de Zootecnia, sobre qualidade da matéria-prima.
Para Ana Paula, a integração entre pesquisa, extensão e produtores permite acelerar a adoção de soluções viáveis. “Quando o produtor vê a tecnologia funcionando dentro de uma fazenda real, ele entende melhor o que pode adaptar para sua propriedade”, acrescenta.
Para ela, o produtor precisa enxergar que a eficiência não depende apenas de grandes investimentos, mas de decisão, acompanhamento e manejo correto. “A produção a pasto com eficiência, uso de tecnologia e conhecimento é viável. É um modelo a ser seguido para pequenas e médias propriedades aqui no nosso país”, avalia.
O sistema da Nata da Serra mostra que a pastagem bem conduzida pode sustentar produtividade, reduzir custos e melhorar a previsibilidade econômica. Na produção orgânica, o desafio é maior, mas a fazenda estruturou modelo baseado em planejamento forrageiro, genética, qualidade do leite e agregação de valor. A transformação do leite em derivados amplia a relação com o consumidor e ajuda a consolidar uma marca ligada ao território, à origem e à produção responsável.
A parceria com a Embrapa, reforça Schiavinato, segue viva porque a propriedade continua em processo de atualização. “A gente está sempre se reinventando, se atualizando, para que a produção continue fluindo da melhor forma possível e com custos compatíveis com o mercado”, diz. Essa busca explica temas como drones, controle biológico e genética: ferramentas que ajudam o produtor a decidir melhor.
Conexão – O movimento iniciado em Serra Negra terá continuidade em 22 de julho, quando a Fazenda Pedra Branca, em Amparo, receberá o dia de campo “Do Pasto ao Leite”, ligado ao Balde Cheio e ao lançamento da Queijaria Mogiana. A propriedade pertence a Paulo Guerra, que buscou apoio da Embrapa e do veterinário Gustavo Pimentel para estruturar um projeto de produção de leite a pasto. A proposta é mostrar planejamento, conforto animal, alimentos de verão e inverno, genética, administração, baixo carbono e manejo de bezerras.
A conexão entre as duas propriedades é direta, uma vez que o rebanho da Fazenda Pedra Branca começou com animais 100% Nova Zelândia adquiridos da Nata da Serra. A opção pela genética neozelandesa está ligada à busca por vacas mais adaptadas ao pastejo, com melhor conversão alimentar e maior produção de sólidos.
Schiavinato conta que a aproximação com instituições e empresas da Nova Zelândia se fortaleceu após viagem realizada em 2022 por meio da LIC, cooperativa neozelandesa de pecuaristas, líder em genética e tecnologia para gado leiteiro. “A gente vem fazendo esse trabalho de difundir essa genética, que é uma tecnologia de vacas que produzem leite a pasto”, diz.
Segundo ele, a genética neozelandesa tem características que dialogam com sistemas baseados em pastagens. “São animais adaptados, com conversão alimentar melhor por quilo de peso vivo, que produzem mais sólidos. E esses sólidos são de melhor qualidade, com gordura com mais ômega 3, mais ácido linoleico conjugado e mais betacaroteno”, afirma. A discussão vai além do volume de leite e coloca no centro do debate a eficiência por área, por animal e por quilo de matéria seca consumida.
Dia de Campo – O evento em Amparo terá palestras pela manhã e estações técnicas no período da tarde e estão previstas as participações de profissionais ligados à Embrapa, ao Balde Cheio, à LIC, à NZTE (agência do governo da Nova Zelândia encarregada de promover o comércio internacional), representantes de empresas neozelandesas de tecnologia agropecuária e convidados de outros países.
Também deverá contar com representante da Nova Zelândia no Brasil e com a presença de um produtor e pesquisador da Argentina. Para Schiavinato, a programação confirma a força técnica do encontro. “Vai ser um evento de uma envergadura muito grande em termos de conhecimento”, avalia.
Na visão de Ana Paula Roque, iniciativas como as realizadas na Nata da Serra e na Pedra Branca cumprem papel estratégico para a assistência técnica.
Na sua visão, ao reunir produtores, técnicos e pesquisadores dentro da fazenda, o processo de aprendizagem se torna mais concreto. “O produtor não recebe apenas uma recomendação; ele observa o sistema funcionando, conversa com quem aplica a tecnologia e compreende os resultados. Essa troca fortalece a confiança e ajuda a superar a distância entre pesquisa e prática.”
Balde Cheio – O programa da Embrapa Sudeste, criado para apoiar a intensificação sustentável da produção leiteira, aparece nesses encontros como uma ponte entre ciência, extensão rural e gestão da propriedade.
Em um cenário de margens apertadas, custos elevados e exigência crescente por qualidade, o pasto volta a ser tratado como ativo estratégico. “A mensagem que sai de Serra Negra e segue para Amparo é clara: produzir leite a pasto não significa produzir de forma improvisada, mas com planejamento, indicadores, assistência técnica e visão de longo prazo”, afirma Schiavinato, para quem essa mensagem tem também dimensão pessoal.
Ele afirma que sua propriedade foi transformada pelo acompanhamento técnico e que hoje sente a responsabilidade de compartilhar o aprendizado. “Eu fui um dos produtores resgatados pelo projeto. Ele mostrou o caminho, fez minha propriedade ser eficiente e eu vivo disso. Tenho essa missão, essa obrigação de passar esse conhecimento para frente”, conclui.