Leite em alta: tendência deve mudar

O valor médio bruto pago ao produtor (que inclui frete e impostos) atingiu R$ 1,6928/litro em agosto, novo recorde, em termos reais, considerando-se toda a série histórica do Cepea-Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP, iniciada em janeiro de 2000.

Essa média de agosto, ponderada pelo volume captado nos estados de GO, MG, PR, RS, SC, SP e BA, superou em quase 13% o valor até então recorde de julho/16 e esteve 54,4% acima do de agosto/15, em termos reais (valores foram deflacionados pelo IPCA de julho/16). Pesquisadores do Cepea alertam que essa tendência, no entanto, pode ser alterada no próximo mês, já que os estoques nas indústrias e a captação de leite vêm aumentando.

De acordo com o Índice de Captação de Leite do Cepea (ICAP-L/Cepea), o volume adquirido pelos laticínios cresceu 5,03% em julho – no acumulado deste ano, porém, a variação ainda é negativa, em 14,5%.

Apesar de ser período de entressafra, indústrias de grande porte têm aumentado a captação frente aos pequenos laticínios, por conta da maior capacidade de remuneração aos produtores. No campo, a produção deve crescer nas próximas semanas, devido ao possível retorno das chuvas e também ao fato de muitos produtores estarem em época de parição de vacas. Neste caso, pecuaristas mais tecnificados concentram o nascimento dos bezerros em momentos que antecedem o início das chuvas.

Além disso, as altas nos preços ao produtor no correr deste ano e a recente queda nos valores do milho e do farelo de soja, componentes do concentrado, também incentivaram maiores investimentos dentro da porteira, o que já vem resultando em aumento na produção de leite.

Por outro lado, a demanda por derivados lácteos está retraída. A perda do poder de compra de consumidores na atual conjuntura econômica do País e o elevado patamar de preço dos derivados afastaram os compradores. Nesse cenário, indústrias relatam que teriam chegado ao limite do repasse de preços da matéria-prima ao derivado para o consumidor final.

Por isso, depois de seis meses de alta consecutiva, os preços dos derivados lácteos caíram em agosto. O leite UHT teve média de R$ 3,4256/litro no mês, queda de 14,4% em relação a julho/16, mas ainda acumula alta de 47% neste ano, em termos reais. O queijo mussarela teve média de R$ 21,20/kg em agosto, recuo de 1,27% frente ao mês anterior, porém, aumento de 48,54% neste ano. Com a demanda enfraquecida e estoques nas indústrias, atacadistas consultados pelo Cepea acreditam em novas quedas nos preços dos derivados, cenário que pode refletir nos valores pagos aos produtores.

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Pressão de baixa a partir do leite spot
“No mercado spot, os preços do leite caíram na primeira quinzena de agosto. Para setembro, a pressão de baixa deverá ganhar força, com uma boa parcela dos laticínios pesquisados nas regiões Sul e Sudeste falando em queda no preço do leite ao produtor”. A confirmação de queda nos preços prevista pelo Cepea vem também de Juliana Pila, analista da Scot Consultoria.

De acordo com seus cálculos, os preços ao produtor subiram 6,0% no pagamento de julho, referente à produção entregue em junho. A média nacional ficou em R$1,174 por litro. “Em relação a julho do ano passado, o leite subiu 21,6%, em valores nominais”, observa, explicando que a concorrência entre os laticínios pela matéria-prima é o principal fator de alta de preço no mercado interno até o mês passado, visto que a demanda não vai bem.

No entanto, o mercado, enfim, deu sinais de inversão de sentido, com  queda nos preços dos lácteos no atacado na primeira quinzena de agosto. “Em Minas Gerais e em São Paulo, os preços médios ficaram em R$1,84 por litro, considerando o preço posto na plataforma. Para uma comparação, em julho os valores chegaram a R$ 2,20 por litro. Na região Sul, os preços variaram de R$1,65 a R$1,75 por litro na segunda metade de julho”, relata.

Outro ponto, é que no mercado atacadista, considerando a média de todos os produtos pesquisados, os preços dos lácteos também caíram. A queda foi de 0,9% na primeira quinzena de agosto, em relação à segunda metade do mês de julho. “De qualquer maneira, a expectativa é de uma menor pressão de alta para o pagamento a ser realizado em agosto”, cita a analista da Scot.

“Para pagamento em setembro, a pressão de baixa deverá ganhar força, com uma boa parcela dos laticínios pesquisados nas regiões Sul e Sudeste acreditando em queda no preço do produtor”, acrescenta. Razão para isso é que, em curto prazo, a produção deverá aumentar no Sul do país e nas principais bacias da região Sudeste, mas os incrementos deverão ser comedidos, em função dos menores investimentos e gastos por parte do produtor na atividade.

Nesse sentido, Juliana Pila observa que custo de produção da pecuária leiteira voltou a subir em agosto. A alta, segundo o Índice Scot Consultoria de Custo de Produção, foi de 1,1% na comparação com o mês anterior. Os aumentos de preços dos combustíveis (2,9%), dos alimentos concentrados proteicos (0,7%) e defensivos agrícolas (0,4%) puxaram os reajustes para cima. Em um ano, os custos para produzir leite acumulam alta de 24,4%.

Leite importado continua competitivo
No Rio Grande do Sul, o Sindilat-Sindicato das Indústrias de Laticínios e Conseleite, por sua vez,  apontaram queda de 6,15% no preço de referência do leite, que atingiu marca histórica em julho. Dados divulgados no dia 23 de agosto, indicam que o valor projetado para o mês passado foi de R$ 1,2391 por litro, abaixo do consolidado de julho que ficou em R$ 1,3203.

Apesar da queda, o valor de agosto ainda está acima dos picos anteriores registrados pelo Conselho nos anos de 2007 (R$ 1,1331), 2009 (R$ 1,1650) e 2013 (R$ 1,1565), corrigidos pelo IPCA. Ao analisar o mix de produtos que compõe o valor de referência, o professor da Universidade de Passo Fundo, Marco Antônio Montoya, cita a queda expressiva do leite UHT (-11,84%), acompanhada de outros itens, como o requeijão (-4,36%).

Segundo ele, a tendência é de redução de preço no país, uma vez que os Conseleites do Paraná e Santa Catarina também sinalizaram queda em agosto. Já o presidente do Sindilat, Alexandre Guerra, pontuou que a inversão de cenário sinaliza para a retomada da produção dos produtores  gaúchos e um menor impacto da entressafra que, neste ano, foi bem mais longa do que em anos anteriores. “Além disso, o valor pago ao produtor nos últimos meses acompanhou a curva de alta de custos”, pontuou.

No mercado internacional, a novidade veio do leilão da plataforma GDT, da Fonterra, que apresentou a maior alta dos últimos 12 meses para o leite em pó integral. Segundo Lucas Henrique Ribeiro, analista do Milkpoint, o resultado do leilão do dia 16 de agosto apresentou variação positiva de 12,7% sobre os preços do leilão anterior, com preços médios de lácteos em US$ 2.731/t. Foram vendidas 37.766 t de produtos lácteos neste leilão.

O leite em pó integral foi o produto que apresentou maior elevação de preços, de 18,9%, sendo comercializado a US$ 2.695/t. Tal valor é o maior desde outubro de 2015. Já o leite em pó desnatado, teve alta de apenas 3%, sendo vendido ao preço de US$ 2.028/t. O queijo cheddar teve alta de 8,9%, chegando ao preço de US$ 3.157/t. “Os contratos futuros de leite em pó integral tiveram suas variações elevadas, estimulados pelo aumento de preços ocorridos. Até fevereiro, as projeções estimam preços entre US$ 2.646 e US$ 2.814/t”, citou.

Valter Galan, também analista do mesmo site, diz que, apesar da subida apresentada pelo GDT, os preços internacionais internalizados no nosso mercado e comparados ao equivalente-leite fresco local, são e continuam sendo competitivos. “Nos atuais patamares de preços e com uma taxa de câmbio de R$ 3,2/US$, é competitivo até mesmo importar leite dos Estados Unidos, de onde paga-se 28% de alíquota de importação para entrar no mercado brasileiro”, destaca.
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Colaboraram nesta seção: Wagner Hiroshi (Cepea/Esalq-USP), Juliana Pila (Scot Consultoria) e Lucas Hnrique Ribeiro (Milkpoint)

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