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Mastite: para onde estamos olhando? – Parte 2

Por Eri­ka Lara, Pes­qui­sa­do­ra de rumi­nan­tes no Cen­tro de Pes­qui­sas da Agro­ce­res Mul­ti­mix

Muito fala­mos, no arti­go ante­ri­or, sobre a mas­ti­te clí­ni­ca, entre­tan­to, sua ausên­cia ou bai­xa inci­dên­cia no reba­nho pode dar uma fal­sa tran­qui­li­da­de ao pro­du­tor. Sabe-se que: atrás de um caso de mas­ti­te clí­ni­ca, podem estar vári­os casos de mas­ti­te sub­clí­ni­ca “escon­di­dos”, que podem estar cau­san­do per­da de pro­du­ção e qua­li­da­de do lei­te (dimi­nui níveis de caseí­na, gor­du­ra e lac­to­se por exem­plo), poden­do ser “reser­va­tó­rio de pató­ge­nos” e se tor­nar um caso clí­ni­co no reba­nho. A mas­ti­te sub­clí­ni­ca é a que resul­ta em mai­o­res pre­juí­zos e seu moni­to­ra­men­to e com­ba­te reque­rem conhe­ci­men­to, dis­ci­pli­na e ação dire­ci­o­na­da.

O que fica invi­sí­vel aos olhos do pro­du­tor é o dano cau­sa­do ao teci­do mamá­rio em um ani­mal que apre­sen­te mas­ti­te sub­clí­ni­ca (o dano tam­bém é cau­sa­do em mas­ti­tes clí­ni­cas). Uma vez veri­fi­ca­do que­da de pro­du­ção de lei­te, uma catás­tro­fe pode estar acon­te­cen­do den­tro do úbe­re, com lesões gra­ves de célu­las secre­to­ras de lei­te encon­tra­das na glân­du­la mamá­ria. Essas lesões podem ser inter­rom­pi­das quan­do erra­di­ca­do o pro­ble­ma, mas sua recons­ti­tui­ção é incom­ple­ta e a pro­du­ção fica com­pro­me­ti­da pelo res­to da vida pro­du­ti­va do ani­mal.

Um dos méto­dos mais uti­li­za­do para auxi­li­ar no diag­nós­ti­co de mas­ti­te sub­clí­ni­ca é o CMT (Cali­for­nia Mas­ti­tis Test), que deve ser rea­li­za­do antes de orde­nhar o ani­mal e após a eli­mi­na­ção dos pri­mei­ros jatos de lei­te. De modo geral, é com­pos­to por uma subs­tân­cia que detec­ta a pre­sen­ça de célu­las somá­ti­cas e pro­mo­ve uma rea­ção, tor­nan­doo meio gela­ti­no­so. Quan­to mais célu­las somá­ti­cas, mais gela­ti­no­so fica o meio. É um méto­do bara­to, que cus­ta em média R$1,00 por ani­mal e deve ser rea­li­za­do com frequên­cia em todos os ani­mais (uma vez ao mês, quin­ze­nal­men­te ou sema­nal­men­te).

 Figu­ra 1. Tes­tes de CMT indi­can­do pos­sí­vel mas­ti­te sub­clí­ni­ca

 

Ava­li­a­ção de CSS

Entre­tan­to, a ava­li­a­ção de CCS (con­ta­gem de célu­las somá­ti­cas), auxi­lia mais pre­ci­sa­men­te no diag­nós­ti­co de mas­ti­te sub­clí­ni­ca, sen­do que pode ser uti­li­za­da uti­li­za­da para ava­li­a­ção indi­vi­du­al (esti­mar índi­ces epi­de­mi­o­ló­gi­cos, pre­juí­zo econô­mi­co e auxi­li­ar na toma­da deci­sões de mane­jo), ou do reba­nho com amos­tras de lei­te do tan­que (res­pos­ta dire­ci­o­na­da sobre a % de vacas com mas­ti­te sub­clí­ni­ca no reba­nho). A CCS nada mais é do que célu­las, em sua mai­o­ria, de ori­gem san­guí­nea, cha­ma­das de leu­có­ci­tos, cuja fun­ção é de defe­sa da glân­du­la mamá­ria (MAR­QUES, 2006). O pon­to de cor­te, hoje uti­li­za­do para CCS, é de 200.000 células/mL de lei­te, sen­do que vacas que apre­sen­tam CCS supe­ri­o­res a esse valor, podem estar com mas­ti­te sub­clí­ni­ca e ter a saú­de com­pro­me­ti­da. Além dis­so, esse mes­mo valor de CCS,quando encon­tra­do em uma amos­tra de lei­te do tan­que, pode indi­car que 20% do reba­nho tem mas­ti­te sub­clí­ni­ca, devi­do à cor­re­la­ção posi­ti­va entre CCS e mas­ti­te sub­clí­ni­ca (Pan­to­ja et al., 2009).

Amos­tras de lei­te para ava­li­a­ção de CCS devem ser envi­a­das, de pre­fe­rên­cia, uma vez ao mês ao labo­ra­tó­rio. Devem ser cole­ta­das amos­tras gerais de cada ani­mal, sen­do que, cada amos­tra fica em tor­no de R$2,00 a R$3,00/animal. Os resul­ta­dos men­sais são um óti­mo parâ­me­tro para ava­li­a­ção de índi­ces epi­de­mi­o­ló­gi­cos, como inci­dên­cia e pre­va­lên­cia de mas­ti­te sub­clí­ni­ca.

 A inci­dên­cia nos dá uma res­pos­ta sobre a dis­se­mi­na­ção da doen­ça, ou seja, o quão rápi­do está pas­san­do de vaca para vaca, é uma medi­da men­sal e deve ser con­tro­la­da. Já a pre­va­lên­cia, nos quan­ti­fi­ca a fra­ção da popu­la­ção que está afe­ta­da, ou seja, o quão gra­ve está a situ­a­ção, sen­do que a inci­dên­cia e a dura­ção dos casos inter­fe­rem nes­se valor.  É inte­res­san­te medir a pre­va­lên­cia men­sal e a pre­va­lên­cia no pri­mei­ro e últi­mo tes­te do perío­do de lac­ta­ção, pois se ela aumen­ta com os dias em lac­ta­ção, pode ser devi­do a uma mas­ti­te con­ta­gi­o­sa, porém, se aumen­ta no iní­cio da lac­ta­ção, pode ser devi­do a mas­ti­te ambi­en­tal pro­ve­ni­en­te, na mai­o­ria dos casos, do perío­do seco. O grá­fi­co a seguir mos­tra de uma for­ma gros­se­ria a pre­va­lên­cia em casos de mas­ti­te ambi­en­tal e con­ta­gi­o­sa.

 

Os dados de CCS tam­bém nos aju­dam a ava­li­ar taxa de cura e de casos crô­ni­cos, que mere­cem aten­ção redo­bra­da. Osmi­cror­ga­nis­mos clas­si­fi­ca­dos como con­ta­gi­o­sos e rela­ci­o­na­dos à mas­ti­te sub­clí­ni­ca são o Staphy­lo­coc­cus aureus e o Strep­to­coc­cu­sa­ga­lac­ti­ae, os prin­ci­pais encon­tra­dos nas fazen­das no Bra­sil. Atu­al­men­te, são os úni­cos micror­ga­nis­mos que, quan­do detec­ta­dos, podem levar a vaca ao tra­ta­men­to da mas­ti­te sub­clí­ni­ca duran­te a lac­ta­ção. Mas o tra­ta­men­to depen­de­rá de aná­li­ses, como ida­de e núme­ro de quar­tos afe­ta­dos, assim como his­tó­ri­co de CCS (ani­mais jovens têm mai­or chan­ce de cura con­tra infec­ção por S. aureus), caso não seja reco­men­da­do o tra­ta­men­to duran­te a lac­ta­ção, pode­rá ser rea­li­za­do a seca­gem do ani­mal ante­ci­pa­da ou a ina­ti­va­ção do quar­to, quan­do o pató­ge­no for agres­si­vo.

Reba­nhos com alta pre­va­lên­cia e aco­me­ti­dos por infec­ção cau­sa­da por S. aga­lac­ti­ae podem ser sub­me­ti­dos a tra­ta­men­to asso­ci­a­do a um bom mane­jo dos ani­mais. A linha de orde­nha garan­te segu­ran­ça para as vacas sadi­as e a “blitz-tera­pia” pode ser indi­ca­da para o tra­ta­men­to simul­tâ­neo dos ani­mais infec­ta­dos, um mane­jo com­pli­ca­do, mas que, rea­li­za­do da for­ma cor­re­ta, apre­sen­ta bons resul­ta­dos.  

A aná­li­se men­sal de CCS do tan­que tam­bém pode ser apli­ca­da, mas alguns cui­da­dos devem ser toma­dos. Vacas com alta CCS podem ter o lei­te des­vi­a­do e o mes­mo­não ser des­ti­na­do ao tan­que, subes­ti­man­do o valor final. Além dis­so, o efei­to da dilui­ção da CCS pode ser outro fator para gerar dados não con­fiá­veis e retar­dar uma ação no momen­to cor­re­to.

Tabe­la 1. Exem­plo de ava­li­a­ção de dados para geren­ci­a­men­to do reba­nho. Aná­li­ses men­sais de CCS do reba­nho e do tan­que auxi­li­am na toma­da de deci­sões.

Vaca

Con­ta­gem de célu­las somá­ti­cas (células/mL; x1000)

Jan

Fev

Mar

Abr

Mai

Jun

Jul

Ago

Set

Out

Nov

More­na

8

14

16

18

20

12

13

22

70

12

10

Mado­na*

1285

347

1034

1500

2100

800

500

1650

.

.

.

Estre­la

37

.

.

1793

500

193

161

183

35

825

78

Bone­ca

.

.

38

11

14

9

15

13

8

8

10

Lídia

.

.

176

49

68

57

810

51

13

50

24

Sara

.

.

51

53

98

87

354

314

280

166

74

Dama

.

.

13

8

9

8

7

13

7

24

11

*Vaca des­ti­na­da ao des­car­te por apre­sen­tar mas­ti­te crô­ni­ca pro­ce­den­te de infec­ção por S. aureus.

            Resu­min­do, o acom­pa­nha­men­to e moni­to­ra­men­to da mas­ti­te sub­clí­ni­ca pode ser fei­ta uti­li­zan­do-se menor paco­te tec­no­ló­gi­co, com uso do méto­do CMT. Avan­çan­do um pou­co, o apri­mo­ra­men­to pode ser adqui­ri­do uti­li­zan­do a CCS do lei­te, indi­vi­du­al, como parâ­me­tro de ava­li­a­ção e, por últi­mo, e mais tec­no­ló­gi­co, o uso da cul­tu­ra na fazen­da, que pode ser rea­li­za­da no reba­nho todo, uma vez por semes­tre ou a cada vaca recém pari­da ou que apre­sen­te altos valo­res de CCS ou alte­ra­ções no tes­te CMT. Lem­bran­do que a cul­tu­ra pode­rá nos indi­car com pre­ci­são qual o micror­ga­nis­mo res­pon­sá­vel pela infec­ção.

Entre­tan­to, mes­mo as fazen­das que não uti­li­zam a cul­tu­ra micro­bi­o­ló­gi­ca podem con­tro­lar o reba­nho, fazen­do aná­li­ses men­sais de CCS e for­man­do lotes de ani­mais com CCS alta, para serem orde­nha­dos no final da orde­nha. Nas vacas com alta CCS, pode ser fei­to o tes­te CMT para detec­ção do quar­to afe­ta­do pela infec­ção e, des­sa for­ma, ape­nas a aná­li­se micro­bi­o­ló­gi­ca daque­le quar­to pode ser rea­li­za­da, tor­nan­do o pro­ce­di­men­to menos one­ro­so.

O pro­ce­di­men­to de aná­li­se micro­bi­o­ló­gi­ca do lei­te tam­bém pode ser uti­li­za­do para “tera­pia da vaca seca”, que pode ser dis­pen­sá­vel quan­do a cul­tu­ra der nega­ti­va, uti­li­zan­do ape­nas o selan­te para con­tro­le de entra­da de pató­ge­nos, via canal do teto. O impor­tan­te é rea­li­zar ao menos um dos mane­jos supra­ci­ta­dos, jun­ta­men­te com estra­té­gi­as de pre­ven­ção de mas­ti­te, e seguir as reco­men­da­ções de mane­jo, tra­ta­men­to e con­tro­le da doen­ça que serão lis­ta­dos no pró­xi­mo capí­tu­lo.

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