“A ideia era cla­ra: com duas eco­no­mi­as com­ple­men­ta­res, a do Bra­sil e a dos demais, cabe­ria ao Bra­sil ofe­re­cer ao blo­co econô­mi­co os pro­du­tos indus­tri­ais, enquan­to adqui­ria dos demais paí­ses os pro­du­tos agrí­co­las.”

 

Nos anos oiten­ta a soci­e­da­de bra­si­lei­ra viveu sua pior déca­da econô­mi­ca após a Segun­da Guer­ra Mun­di­al. Che­ga­mos a ter a ter­cei­ra mai­or infla­ção da his­tó­ria do mun­do, des­de que este indi­ca­dor de desem­pe­nho econô­mi­co pas­sou a ser medi­do, com taxas cres­cen­tes de desem­pre­go. Este qua­dro alu­ci­nan­te de infla­ção e desem­pre­go ele­va­dos con­fi­gu­rou o pior dos mun­dos e o que todos os eco­no­mis­tas temem para a saú­de de um país. E foi este ambi­en­te de ins­ta­bi­li­da­de que esti­mu­lou a cri­a­ção do Mer­co­sul em 1991. A ideia era cla­ra: com duas eco­no­mi­as com­ple­men­ta­res, a do Bra­sil e a dos demais, cabe­ria ao Bra­sil ofe­re­cer ao blo­co econô­mi­co os pro­du­tos indus­tri­ais, enquan­to adqui­ria dos demais paí­ses os pro­du­tos agrí­co­las.

Com a cri­a­ção da inte­gra­ção comer­ci­al, sacri­fi­can­do a agri­cul­tu­ra, ima­gi­na­va-se que o Bra­sil teria dois ganhos sig­ni­fi­ca­ti­vos. Como a indús­tria bra­si­lei­ra se mos­tra­va alta­men­te oci­o­sa, a pos­si­bi­li­da­de de ven­der car­ros e toda a cha­ma­da linha bran­ca de ele­tro­do­més­ti­cos, repre­sen­ta­da por gela­dei­ra, fogões e outros, iria impul­si­o­nar a gera­ção de empre­go e ren­da ime­di­a­ta­men­te. Por outro lado, con­si­de­ran­do as con­di­ções de cus­tos cres­cen­tes da ali­men­ta­ção, num país então impor­ta­dor de ali­men­tos, a che­ga­da de pro­du­tos agrí­co­las da Argen­ti­na e do Uru­guai pode­ria sig­ni­fi­car a redu­ção da pres­são infla­ci­o­ná­ria, com a melho­ria do bem-estar prin­ci­pal­men­te da popu­la­ção de mais bai­xa ren­da, que tem no ali­men­to o seu prin­ci­pal com­po­nen­te de cus­to de vida.

O Mer­co­sul sur­giu, por­tan­to, no pior dos cená­ri­os para o lei­te bra­si­lei­ro. Está­va­mos pres­tes a com­pe­tir com o lei­te argen­ti­no e uru­guaio, num momen­to em que havia aca­ba­do o tabe­la­men­to de pre­ços do lei­te, que era fei­to pelo Gover­no, e pro­du­to­res e indús­tria ini­ci­a­vam a dolo­ro­sa apren­di­za­gem de nego­ci­ar pre­ços entre si e com o vare­jo, até então, pou­co pode­ro­so. A era dos super­mer­ca­dos esta­va ain­da come­çan­do. Além dis­so, a aber­tu­ra comer­ci­al bra­si­lei­ra dava os seus pri­mei­ros pas­sos, com a des­re­gu­la­men­ta­ção das impor­ta­ções em geral. Como éra­mos o quar­to país impor­ta­dor de lei­te do mun­do, e sen­do lei­te um pro­du­to alta­men­te sub­si­di­a­do na Euro­pa, a com­pe­ti­ção a que os pro­du­to­res bra­si­lei­ros de lei­te esta­vam expos­tos não era ape­nas a do lei­te dos paí­ses no Mer­co­sul, recém-cri­a­do.

O pro­du­tor de lei­te bra­si­lei­ro, então, saiu de um mun­do em que o pre­ço do seu pro­du­to era tabe­la­do sem­pre bai­xo e deses­ti­mu­lan­te, visan­do com­ba­ter a infla­ção, para com­pe­tir com pro­du­to impor­ta­do com pre­ços sub­si­di­a­dos na ori­gem. E ocor­reu um fenô­me­no não pre­vis­to em nenhum manu­al de eco­no­mia inter­na­ci­o­nal: a subs­ti­tui­ção de impor­ta­ções de modo inten­so e con­tí­nuo, e em 2004 o Bra­sil come­çou a expor­tar lei­te e che­gou a atin­gir 86 paí­ses. Isso somen­te foi inter­rom­pi­do com a cri­se finan­cei­ra mun­di­al de 2008, que der­ru­bou os mer­ca­dos inter­na­ci­o­nais e for­çou a indús­tria bra­si­lei­ra a se repo­si­ci­o­nar, bus­can­do o mer­ca­do inter­no.

Toda­via, o fato é que a pro­du­ção anu­al de lei­te no Bra­sil gera­va uma ofer­ta de cer­ca de 14,6 bilhões de litros/ano para uma popu­la­ção de 146,8 milhões. Por­tan­to, tínha­mos cer­ca de 100 litros de lei­te pro­du­zi­dos inter­na­men­te para cada bra­si­lei­ro. Ago­ra, temos cer­ca de 166 litros para cada habi­tan­te por ano, e a pro­du­ção somen­te não cres­ce mais em fun­ção da for­te vola­ti­li­da­de de pre­ços, que aumen­ta o ris­co dos inves­ti­men­tos fei­tos em cres­ci­men­to de pro­du­ti­vi­da­de.

Mas o fenô­me­no mais inte­res­san­te e resul­tan­te da cri­a­ção do Mer­co­sul e aber­tu­ra do mer­ca­do bra­si­lei­ro à com­pe­ti­ção foi a mudan­ça do mapa do lei­te. Se a tec­no­lo­gia levou o lei­te para Goiás, quan­do apren­de­mos a pro­du­zir no Cer­ra­do e quan­do intro­du­zi­mos o lei­te Lon­ga Vida, foi o Mer­co­sul que nos mos­trou o poten­ci­al com­pe­ti­ti­vo dos esta­dos do Para­ná, San­ta Cata­ri­na e Rio Gran­de do Sul. Estes esta­dos estão expos­tos há 28 anos a uma com­pe­ti­ção dire­ta com o lei­te da Argen­ti­na e do Uru­guai. Não é à toa que são os Esta­dos do Bra­sil mais com­pro­me­ti­dos com polí­ti­cas sani­tá­ri­as para o reba­nho, com pro­du­to­res mais com­pro­me­ti­dos com a qua­li­da­de do lei­te e com a melho­ria con­tí­nua do aumen­to da pro­du­ti­vi­da­de. Se é um fenô­me­no a pro­du­ção bra­si­lei­ra ter mais do que dupli­ca­do nes­te perío­do de Mer­co­sul, sal­ta aos olhos o cres­ci­men­to da pro­du­ção no Sul, que qua­se tri­pli­cou. Mais que isso, eles con­se­gui­ram aden­sar a pro­du­ti­vi­da­de, e hoje já temos muni­cí­pi­os intei­ros com pro­du­ti­vi­da­de média por vaca em tor­no de seis mil qui­los por lac­ta­ção, ou seja, padrão euro­peu.

Pois os pla­nos ori­gi­nais pen­sa­dos para o Mer­co­sul não deram cer­to. A agri­cul­tu­ra bra­si­lei­ra não foi a moe­da de tro­ca em favor da indús­tria. Pelo con­trá­rio! Nes­se perío­do, o Bra­sil orga­ni­zou sua pro­du­ção em cadei­as alta­men­te com­pe­ti­ti­vas, e hoje ali­men­ta seis ‘bra­sis’ em todo o mun­do. E, no lei­te, esta­mos fazen­do uma revo­lu­ção silen­ci­o­sa. Sem inge­nui­da­de, no mês que vem vou ana­li­sar as opor­tu­ni­da­des para o lei­te bra­si­lei­ro dian­te des­te acor­do com a União Euro­peia, que está ape­nas dan­do seus pri­mei­ros pas­sos. Aguar­de! Vol­to aqui com as flo­res da Pri­ma­ve­ra!

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