Plantar o conhecimento e colher resultados: a importância de levar informação ao produtor rural

*Dimas Del Bosco Cardoso

O sucesso do agronegócio, entre diversos fatores, passa também pelo conhecimento. Seja na lavoura ou na pecuária, o acesso à informação é determinante para o produtor fazer escolhas adequadas. Quando abordamos essa perspectiva na silagem, por exemplo, ter o domínio de como fazer, da produção ao manejo, é uma necessidade estratégica que impacta diretamente na produtividade, saúde do rebanho e nos custos da propriedade, além, é claro, de trazer mais rentabilidade.

Segundo a Embrapa, a falta de informação, somada a erros de manejo na produção e estocagem da silagem no Brasil, podem levar a perdas de até 40% da matéria seca do material. Essas perdas têm a chance de acontecer em diversas etapas do processo, desde a colheita até a retirada diária do silo para alimentação dos animais, e não se limitam apenas à matéria estragada visível, mas também incluem as invisíveis.

A silagem é de extrema importância para a pecuária, pois garante o fornecimento constante de alimento de qualidade durante os períodos de escassez de pastagem, prevenindo a perda de peso e a queda na produção de leite e carne. O cuidado correto resulta em alto valor nutritivo, com a combinação ideal de energia e proteína, o que é fundamental para a saúde dos animais e para alcançar altos índices de produtividade, como em vacas leiteiras de alta produção.

Nesse contexto, pode-se observar que o conhecimento técnico transforma uma prática comum em uma estratégia de gestão eficiente, garantindo a viabilidade econômica da atividade pecuária e a resiliência do sistema produtivo frente às variações climáticas. É importante que o produtor saiba das duas fases cruciais da produção: o planejamento antes de iniciar a safra e o processo de cultivo.
Artigo Silagem 4Antes da safra, o produtor precisa selecionar a cultura mais adequada, seja ela capim, milho ou sorgo, com base no ciclo de produção, no potencial de rendimento de massa e, principalmente, no valor nutritivo desejado para atender às exigências dos animais. Além disso, é vital entender que a qualidade da silagem é definida antes do corte. O momento ideal é determinado pelo teor de matéria seca, que geralmente deve estar entre 32% e 38%, com o ideal em torno de 35% para o milho e sorgo. Colher muito cedo resulta em silagem com baixa energia e perdas por efluentes, pouca matéria seca e menor qualidade de fermentação; colher tarde resulta em menor digestibilidade e perdas por dificuldades de processamentos e compactação no silo, além de reduzir o consumo.

Aqui, talvez esteja o maior desafio do produtor: a época de colheita da silagem. Muitas vezes, a falta de conhecimento sobre a janela ideal para a colheita leva a perdas. Há também a dependência de terceiros para realizar essa tarefa, que pode sair da janela ideal devido à fatores como o clima.Em outras palavras, se colher cedo (muito verde) a silagem será fraca, terá pouca energia de amido, fermentação ruim e o produtor terá que gastar mais concentrado energético ou ração. Se colher tarde, “passa do ponto”, e isso prejudica a digestibilidade e o consumo da silagem pelos animais com maior pressão de seleção e sobras de cocho.

Artigo Silagem 2O momento ideal para a colheita é quando a silagem está entre 32% a 38% de matéria seca, e, assim, o produtor alcança a máxima rentabilidade e qualidade nutricional com menores índices de perdas. Perder o “timing” implica em perdas financeiras e de qualidade da produção. Precisamos neste momento ter muita atenção com a uniformidade do tamanho das partículas (acima de 70% nas peneiras de 19 e 8mm das 4 peneiras Penn State), e no processamento de grãos (KPS ≥ 70% ou 2 a 3 grãos inteiros por litro).
O pecuarista também deve saber calcular o volume de silagem necessário para alimentar o rebanho durante o período de escassez e dimensionar o tipo de silo: trincheira, superfície, bag, para garantir a correta estocagem. Já a compactação é o passo mais crítico para expulsar o oxigênio e criar um ambiente anaeróbico. O produtor deve saber calcular a pressão correta e usar o maquinário adequado para atingir uma densidade mínima em torno de 700 kg de matéria verde/m³ ou 240 kg matéria seca/m³. A compactação inadequada leva ao crescimento de leveduras e fungos, resultando em perdas de nutrientes e presença de micotoxinas.

Ao final do processo, após a abertura do silo, é necessário saber retirar a silagem de forma homogênea e rápida para evitar a entrada de ar e a deterioração aeróbica, ou seja, evitar que a silagem “esquente”, contaminando-se com fungos e leveduras, perdendo suas qualidades nutricionais e consumindo volume de matéria seca. A taxa de retirada deve ser de 250 kg/m² da face do silo (largura x altura) ou 30cm/dia (2 m por semana).

Além do conhecimento necessário para fazer o manejo correto e as boas práticas, a tecnologia, vale ressaltar, também auxilia na qualidade e no resultado final. Algumas ferramentas, como a análise bromatológica, podem ajudar a conhecer o valor nutritivo do alimento estocado. Conhecida como o “Raios-X da silagem”, esse tipo de funcionalidade fornece informações detalhadas sobre a composição e o aspecto nutricional, determinando o impacto que terá, seja positivo ou negativo.

A análise bromatológica avalia principalmente fatores como matéria seca, amido e a digestibilidade, essenciais para a qualidade e o sucesso econômico da dieta animal. Mas essa ferramenta pode ir além e aferir a quantidade de nutrientes como o nitrogênio, potássio, cálcio e magnésio, o que é relevante para checar a adubação versus o nível de extração; e avaliar ainda se o milho atende a outros critérios de qualidade, como rendimento acima de 20 toneladas de matéria seca (para ser considerado um milho ideal para silagem). A checagem é realizada tanto em laboratório quanto por meio de um aparelho portátil remoto que pode ser levado às propriedades e apresentado diretamente aos produtores no campo.

Investir em conhecimento e levar informação ao campo são fundamentais para que o produtor domine as técnicas de planejamento e de boas práticas. Em um cenário de grandes desafios para o setor e margens apertadas, ajudá-lo a ter domínio sobre a ciência da silagem é empoderá-lo com a ferramenta mais poderosa para garantir a estabilidade e o sucesso econômico de sua atividade.

*Dimas Del Bosco Cardoso é especialista em silagem para a Pioneer Brasil e Paraguai

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