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Com o cenário atual a produção de leite tem se tornado desafiadora para pecuaristas

ARTIGO


Produzir Leite pode ser uma atividade lucrativa no atual cenário?

Por Ale­xan­dre M. Pedro­so (foto) e Mateus Tei­xei­ra da Cos­ta da Nutron/Cargill

Quan­do o pre­ço do lei­te pago ao pro­du­tor está em bai­xa e o cus­to de pro­du­ção em alta, as mar­gens de lucro dos sis­te­mas de pro­du­ção de lei­te ficam mui­to redu­zi­das, ou até desa­pa­re­cem. Esse é um impor­tan­te desa­fio que o pro­du­tor está enfren­tan­do nes­se ano de 2020, um ano que jamais será esque­ci­do. E nes­se cená­rio tão desa­fi­a­dor, o que fazer para man­ter a lucra­ti­vi­da­de na pro­du­ção de lei­te? Isso é pos­sí­vel?

A pri­mei­ra coi­sa a con­si­de­rar é o real impac­to do pre­ço do lei­te sobre a ren­ta­bi­li­da­de da pro­du­ção lei­tei­ra. Dados do SEBRAE-MG mos­tram que a cor­re­la­ção entre a mar­gem líqui­da de fazen­das pro­du­to­ras de lei­te e o pre­ço rece­bi­do pelo pro­du­to é mui­to fra­ca, como mos­tra a figu­ra 1 abai­xo,

                    Figu­ra 1. Pre­ço médio do lei­te (R﹩/L) X Mar­gem líqui­da uni­tá­ria (R﹩/L)
 

Essa aná­li­se envol­ve a ava­li­a­ção do resul­ta­do de 467 fazen­das no perío­do de feve­rei­ro de 2019 a janei­ro de 2020, com dados cor­ri­gi­dos pelo IGP-DI de mar­ço de 2020. Ape­sar de ser uma cor­re­la­ção posi­ti­va, a figu­ra mos­tra que a vari­a­ção no pre­ço do lei­te expli­ca ape­nas 11,02% da vari­a­ção na mar­gem líqui­da da ati­vi­da­de. A figu­ra exem­pli­fi­ca então que há mui­tas fazen­das rece­ben­do pou­co pelo lei­te (menos de R﹩ 1,30/litro) e, pos­su­em mar­gens mui­to posi­ti­vas, mas, ao mes­mo tem­po, há núme­ros igual­men­te sig­ni­fi­ca­ti­vos de fazen­das rece­ben­do mais de R﹩ 1,70/litro que estão per­den­do dinhei­ro na ati­vi­da­de. Ou seja, o pre­ço do lei­te é impor­tan­te, mas não é a úni­ca variá­vel o que defi­ne a lucra­ti­vi­da­de das fazen­das.

Essa aná­li­se do SEBRAE mos­trou tam­bém que o fator que mais impac­ta o resul­ta­do das fazen­das é o volu­me total de lei­te pro­du­zi­do (52,1%). Den­tre as fazen­das que foram ava­li­a­das na base de dados, o aumen­to da mar­gem líqui­da acon­te­cia jun­to com o aumen­to na pro­du­ção total de lei­te. O gas­to com ali­men­tos con­cen­tra­dos gerou impac­to de ape­nas 7,2% na mar­gem líqui­da, segui­do pelo gas­to com mão de obra (3,9%) e gas­to com ali­men­tos volu­mo­sos (2,7%). Ao ana­li­sar esses resul­ta­dos fica cla­ro que o “melhor ami­go” da ren­ta­bi­li­da­de é o volu­me de pro­du­ção. Des­sa for­ma, per­ce­be-se cla­ra­men­te que redu­zir a pro­du­ção na ten­ta­ti­va de redu­zir cus­tos não é a estra­té­gia mais indi­ca­da.

Sem­pre que a mar­gem aper­ta, a ten­dên­cia natu­ral dos pro­du­to­res de lei­te é olhar para os cus­tos. E, via de regra, o foco vai para o desem­bol­so com a com­pra de ali­men­tos, pois nor­mal­men­te este é o fator de mai­or peso na pla­ni­lha de cus­tos da pro­du­ção do lei­te. Quan­do o lucro ten­de a dimi­nuir, auto­ma­ti­ca­men­te a ali­men­ta­ção do reba­nho é revis­ta. Mas, redu­zir os gas­tos com ali­men­ta­ção vai fazer com que, ao final do mês, o pro­du­tor de fato eco­no­mi­ze dinhei­ro? O gran­de pro­ble­ma é que ao redu­zir o gas­to com ali­men­tos, sem pro­mo­ver o ajus­te ade­qua­do na die­ta, pode fazer com que o pro­du­tor cor­re séri­os ris­cos de pro­mo­ver que­da na pro­du­ção das vacas, o que pode com­pro­me­ter bas­tan­te a saú­de finan­cei­ra das fazen­das, como mos­tra­do na aná­li­se do SEBRAE.

Uma aná­li­se mui­to impor­tan­te a fazer na fazen­da é a vari­a­ção do RMCA (recei­ta menos o cus­to dos ali­men­tos), indi­ca­dor que mos­tra de manei­ra mui­to cla­ra a rela­ção entre pro­du­ção total, cus­to da die­ta e quan­to sobra para o pro­du­tor depois de pagar o mai­or cus­to de pro­du­ção. Na tabe­la 1 abai­xo pode­mos ver uma simu­la­ção das rela­ções entre pro­du­ção de lei­te, cus­to de ali­men­ta­ção e RMCA. Os dados apre­sen­ta­dos são uma simu­la­ção de dife­ren­tes situ­a­ções con­si­de­ran­do dife­ren­tes volu­mes de lei­te pro­du­zi­do, dife­ren­tes cus­tos de die­ta e dife­ren­tes pre­ços rece­bi­dos pelo lei­te. As die­tas foram for­mu­la­das para aten­der ade­qua­da­men­te os reque­ri­men­tos nutri­ci­o­nais para cada nível de pro­du­ção, uti­li­zan­do-se ali­men­tos comuns nas fazen­das e cus­tos dos insu­mos apu­ra­dos na região sudes­te no mês de maio de 2020.

Tab. 1. Análise da RMCA em diferentes cenários de volume de leite produzido e custo de dieta

Quan­to mai­or a pro­du­ção da vaca, mai­or o cus­to de ali­men­ta­ção. No entan­to, como fica cla­ro na tabe­la, quan­to mai­or a pro­du­ção, mai­or a RMCA, que equi­va­le ao dinhei­ro que sobra depois de pago o cus­to da die­ta, inde­pen­den­te do pre­ço do lei­te. Obvi­a­men­te o pro­du­tor deve con­si­de­rar os demais cus­tos — fixos e variá­veis — na ava­li­a­ção da sua ren­ta­bi­li­da­de, mas con­si­de­ran­do que para uma mes­ma estru­tu­ra, o impac­to do volu­me total pro­du­zi­do será mui­to gran­de.

Base­a­do nos dados aci­ma, se con­si­de­rar­mos um reba­nho com 100 vacas em lac­ta­ção, se a média de pro­du­ção for de 15 litros/vaca/dia e o pre­ço do lei­te R﹩ 1,20/litro, a recei­ta men­sal será de R﹩ 54.000,00. Nes­se cená­rio o cus­to de ali­men­ta­ção das vacas em lac­ta­ção será de R﹩ 41.010,00, ou seja, sobra­rão ape­nas R﹩ 12.990,00 para pagar os demais cus­tos. Mui­to difí­cil pen­sar em lucro num cená­rio des­ses. Se a pro­du­ção média das vacas sal­tar para 20 litros/dia, a recei­ta sal­ta para R﹩ 72.000,00 men­sais e o cus­to da ali­men­ta­ção para R﹩ 47.790,00, e nes­se cená­rio já sobram R﹩ 24.210,00. Com um aumen­to de 16,53% no cus­to de ali­men­ta­ção das vacas em lac­ta­ção, o pro­du­tor con­se­gue um aumen­to de 86,37% na RMCA, ou seja, o ganho em recei­ta em fun­ção do aumen­to no volu­me de lei­te pro­du­zi­do é mui­to mai­or do que o aumen­to no cus­to da ali­men­ta­ção.
A figu­ra 2 mos­tra a vari­a­ção do cus­to da die­ta e do RMCA em rela­ção a dife­ren­tes níveis de pro­du­ção por vaca, con­si­de­ran­do o lei­te a R﹩ 1,20/litro.

Figura 2. Custo da dieta, RMCA e EA em relação ao volume de produção

Per­ce­be-se cla­ra­men­te que o cus­to total da die­ta (linha ver­me­lha) aumen­ta à medi­da que as vacas pro­du­zem mais lei­te, o que é óbvio, mas é impor­tan­te notar como a RMCA (linha azul) aumen­ta pro­por­ci­o­nal­men­te mais do que o cus­to. Outro pon­to impor­tan­te é que a Efi­ci­ên­cia Ali­men­tar (EA — litros de lei­te pro­du­zi­dos por kg de maté­ria seca de ali­men­to inge­ri­da) tam­bém aumen­ta à medi­da que aumen­ta a pro­du­ção da vaca. Ou seja, quan­to mai­or o volu­me de lei­te pro­du­zi­do, mais efi­ci­en­tes são as vacas e mai­or a RMCA, mes­mo com o aumen­to no cus­to de ali­men­ta­ção.

Como o dinhei­ro gas­to na com­pra de ali­men­tos sem­pre é sig­ni­fi­ca­ti­vo, é natu­ral que se pen­se em redu­zir esse desem­bol­so men­sal. A aná­li­se pro­pos­ta nes­te arti­go, demons­tra que o pro­du­tor deve pen­sar mui­to antes de cor­tar o gas­to com a comi­da das vacas, pois se isso levar a uma redu­ção na pro­du­ção de lei­te, o resul­ta­do finan­cei­ro pode ser desas­tro­so.

É pre­ci­so lem­brar que nem todas as vacas em lac­ta­ção estão no mes­mo “momen­to”. Em todo reba­nho há vacas no iní­cio, meio e final de lac­ta­ção. As que se encon­tram no ter­ço ini­ci­al da cur­va pro­du­ti­va são as mais efi­ci­en­tes, pois comem menos e pro­du­zem mais do que as do final da cur­va. Além da ques­tão pro­du­ti­va é pre­ci­so lem­brar que as vaca no iní­cio do ciclo estão em perío­do repro­du­ti­vo, ou seja, pre­ci­sam estar mui­to bem nutri­das para que pos­sam empre­nhar nova­men­te, o mais rápi­do pos­sí­vel. Atra­sar o esta­be­le­ci­men­to de nova pre­nhez sig­ni­fi­ca gas­tar mais dinhei­ro com a vaca e redu­zir a sua efi­ci­ên­cia pro­du­ti­va. Des­sa for­ma, pen­sar em redu­zir a pro­du­ção des­sas vacas, dimi­nuin­do a ofer­ta de comi­da ou pio­ran­do a qua­li­da­de da sua die­ta tra­rá impac­tos nega­ti­vos dura­dou­ros na ren­ta­bi­li­da­de de pro­pri­e­da­de, pon­do em ris­co o futu­ro da ati­vi­da­de.

Para as vacas já no ter­ço final da lac­ta­ção de fato cabe uma refle­xão: vale a pena man­tê-las pro­du­zin­do, se a mar­gem de lucro está mui­to aper­ta­da? É pre­ci­so ava­li­ar qual o pon­to de equi­lí­brio da pro­du­ção, ou seja, qual o volu­me míni­mo de lei­te pro­du­zi­do por dia que jus­ti­fi­que man­ter a vaca em lac­ta­ção. Qual o míni­mo que ela deve pro­du­zir para, pelo menos, pagar os cus­tos? Essa aná­li­se deve ser fei­ta indi­vi­du­al­men­te por cada pro­du­tor con­si­de­ran­do a situ­a­ção par­ti­cu­lar de cada fazen­da, ana­li­san­do os seus cus­tos e RMCA que con­se­gue apu­rar. Na tabe­la 1 aci­ma fica cla­ro que quan­to menos a vaca pro­duz, mai­or a chan­ce de que ela não se pague, pois se a RMCA for mui­to peque­na pode não sobrar recei­ta sufi­ci­en­te para pagar os demais cus­tos.

Caso em sua aná­li­se seja cons­ta­ta­do que algu­mas não este­jam sen­do lucra­ti­vas, tal­vez seja o caso de se con­si­de­rar a seca­gem das que esti­ve­rem no ter­ço final da lac­ta­ção.

Ine­ga­vel­men­te isso pode aju­dar a redu­zir os cus­tos e pode fazer sen­ti­do se essas vacas não estão apre­sen­tan­do RMCA posi­ti­vo, mas outro item a ser ava­li­a­do é o aumen­to do ris­co de desen­vol­ve­rem mas­ti­te em um perío­do seco mui­to pro­lon­ga­do, então é pre­ci­so cal­cu­lar o cus­to-bene­fí­cio des­sa prá­ti­ca, pois os pre­juí­zos podem ser ain­da mai­o­res se a vaca neces­si­tar de tra­ta­men­to e, cer­ta­men­te, vai impac­tar nega­ti­va­men­te o seu desem­pe­nho no iní­cio da lac­ta­ção seguin­te.

Pelo que foi abor­da­do até aqui con­clui-se que o melhor cami­nho para man­ter a lucra­ti­vi­da­de na fazen­da lei­tei­ra é bus­car a máxi­ma efi­ci­ên­cia das uni­da­des de pro­du­ção, no caso, as vacas. O gran­de “com­bus­tí­vel” para a pro­du­ção é a comi­da, e por isso é fun­da­men­tal ava­li­ar a RMCA per­ma­nen­te­men­te. Mas outros aspec­tos tam­bém con­tri­bu­em deci­si­va­men­te com a efi­ci­ên­cia. Os pon­tos des­ta­ca­dos abai­xo devem ser igual­men­te moni­to­ra­dos e ava­li­a­dos para que se con­si­ga tra­ba­lhar com alta efi­ci­ên­cia:

Garan­ta con­for­to para os ani­mais: fal­ta de con­for­to impac­ta de for­ma bru­tal a pro­du­ção de lei­te e o desem­pe­nho repro­du­ti­vo. Quan­to mais tem­po as vacas pas­sam des­can­san­do, mai­or sua efi­ci­ên­cia ali­men­tar e RMCA. Para vacas em iní­cio de lac­ta­ção mais con­for­to sig­ni­fi­ca mai­or pico de pro­du­ção e retor­no mais rápi­do à ati­vi­da­de estral, o que sig­ni­fi­ca melho­res índi­ces repro­du­ti­vos.

Ava­lie o núme­ro de ani­mais em recria: mui­tas fazen­das tra­ba­lham com recri­as “incha­das”, man­ten­do um núme­ro de novi­lhas mai­or do que sua neces­si­da­de de repo­si­ção. Mes­mo poden­do ser uma fon­te extra de recei­ta, a cri­a­ção de um núme­ro de novi­lhas além do neces­sá­rio repre­sen­ta um cus­to adi­ci­o­nal sig­ni­fi­ca­ti­vo para a fazen­da. Em momen­tos de ajus­tes de cus­tos, a ven­da das novi­lhas exce­den­tes é indi­ca­da.

Cui­de com rigor da sani­da­de do reba­nho: qual­quer doen­ça ou enfer­mi­da­de, mes­mo que seja sub­clí­ni­ca, reduz a efi­ci­ên­cia pro­du­ti­va dos ani­mais. No caso das vacas em lac­ta­ção, a mas­ti­te e os pro­ble­mas de cas­co são as ocor­rên­ci­as mais comuns e mais fáceis de serem iden­ti­fi­ca­das e repre­sen­tam per­da mui­to sig­ni­fi­ca­ti­va de efi­ci­ên­cia. Em cená­ri­os desa­fi­a­do­res é pre­ci­so redo­brar a aten­ção e cui­da­dos para evi­tar esses pro­ble­mas e até apro­vei­tar o momen­to para des­car­tar ani­mais com pro­ble­mas gra­ves ou crô­ni­cos.

Con­si­de­ran­do todos os aspec­tos dis­cu­ti­dos aqui pode­mos dizer que o cená­rio atu­al está impon­do um desa­fio gran­de aos pro­du­to­res de lei­te, mas que a ati­vi­da­de pode sim ser lucra­ti­va, des­de que o foco seja pela bus­ca da efi­ci­ên­cia de pro­du­ção. É fun­da­men­tal enten­der que, como em qual­quer negó­cio, é impor­tan­tís­si­mo con­tro­lar os cus­tos. O que se deve ter em men­te é que, em momen­tos difí­ceis, os pri­mei­ros cus­tos a serem cor­ta­dos deve­ri­am ser os que não tra­zem recei­ta para o negó­cio.

Já os cus­tos rela­ci­o­na­dos à gera­ção de recei­ta, como os cus­tos de ali­men­ta­ção das vacas em lac­ta­ção, devem ser revi­sa­dos com mui­to cui­da­do e com a aju­da de pro­fis­si­o­nais espe­ci­a­li­za­dos, para evi­tar ou mini­mi­zar impac­tos sobre a pro­du­ção do lei­te. Deve-se ter sem­pre em men­te que, como mos­tram cla­ra­men­te os dados do SEBRAE, o volu­me de lei­te pro­du­zi­do é o fator de mai­or impac­to sobre a ren­ta­bi­li­da­de.
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