Produção de leite pode ajudar a segurar famílias no campo mesmo com as atuais dificuldades

Presidente da Gadolando e da Febrac apresenta no Encontro dos Professores Agrícolas panorama da cadeia e destaca importância da atividade para a permanência das famílias no campo

O 40º Encontro Estadual de Formação dos Professores de Ensino Agrícola iniciou sua programação, na manhã desta sexta-feira, 28 de novembro, no Hotel Embaixador, em Porto Alegre (RS), com palestra sobre produção leiteira conduzida pelo presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando) e da Federação Brasileira das Associações de Criadores de Animais de Raça (Febrac), Marcos Tang. O encontro é promovido pela Associação Gaúcha de Professores Técnicos de Ensino Agrícola (Agptea) e reuniu profissionais de diferentes regiões do Estado.

Ao iniciar a apresentação, Tang ressaltou que o cenário atual exige pragmatismo e gestão cuidadosa na cadeia do leite. “Chegamos nos dias atuais, podemos discutir bem a crise atual, mas a produção leiteira, sem dúvida, só funciona se o programa for bem feito”, observou. Ele destacou ainda o papel social da atividade na fixação de famílias no campo. “Sem dúvida, a produção de leite é fundamental para manter o homem, a mulher e o jovem no meio rural. É uma das atividades que mais fixa as pessoas no campo”, complementou.

O dirigente chamou atenção para a rotina intensa da pecuária leiteira e para a característica de remuneração recorrente, elemento que historicamente sustentou a permanência de muitos produtores na atividade. “A atividade leiteira tem duas colheitas por dia, que são as ordenhas. O que isso significa? Que tu não precisas esperar seis meses para receber algum dinheiro. Eu estudei e me formei baseado na atividade leiteira, porque ali tu tinhas, e ainda tens, uma remuneração pelo menos mensal”, comentou.

Tang também abordou a percepção equivocada sobre o termo “entregar o leite”, expressão usada com frequência pelo produtor, mas que, segundo ele, evidencia um problema estrutural de mercado. “O leite é um dos únicos produtos que a gente entrega. Parece que o leiteiro é vocacionado, que aquilo não é uma atividade econômica. A palavra entrega cai melhor porque, geralmente, quando o caminhão sai da tua casa levando o teu leite, tu não sabes quanto vais receber por aquilo”, explicou. Ele comparou a situação com a compra de insumos para ilustrar a assimetria de relação na cadeia. “Se tu não consegues pagar a ração, o cara poderia te dizer: ‘Não, entrega a ração aí. No fim do mês, quando eu receber, eu faço as contas’. É mais ou menos assim”, confidenciou.

Ao tratar dos desafios de escala, o palestrante destacou que o aumento do volume individual nem sempre resulta em maior retorno financeiro. “Por isso que muitos dizem: ‘Quando eu tinha 500, 600, 300 litros, eu tinha lucro. Agora tenho 2 mil e não tenho mais’. Porque quando tu tens um funcionário, tu precisas ter dois. E aí tu precisas ter escala”, ponderou. Ele mencionou ainda as limitações de área em diferentes regiões do país e a migração gradual da produção dentro do Rio Grande do Sul. “O Estado está migrando para a região Noroeste, subindo os rios, por causa do espaço. Lá, quando a atividade vai bem, muita gente reduz um pouco e deixa alguns hectares para o leite como um bônus dentro da propriedade”, frisou.

Na sequência, Tang compartilhou sua experiência acumulada em visitas a propriedades de todo o Estado. “Temos 1,1 mil propriedades rurais que resistem aos seus desafios. Dessas, eu já visitei quase todas. A gente faz três, quatro mil quilômetros sempre. Então a gente conhece a realidade tanto do produtor que começou do zero, do que comprou a propriedade consolidada, do que herdou, do que está começando”, afirmou.

Outro ponto apresentado foi a relação entre morfologia, longevidade e produtividade das vacas. Tang explicou que a avaliação morfológica vai muito além da aparência. “Eu gosto de vaca correta. Quando alguém diz que ela é bonita, aquilo não é beleza estética, embora seja uma beleza morfológica. Aquilo é longevidade. Quando tu analisas aqueles itens, tu estás dizendo que aquela vaca tem chance maior de ser longeva. Não é garantia, mas é probabilidade”, ressaltou.

Na palestra, Tang abordou níveis de produção plausíveis dentro da atividade. “Se tu és produtor e tens uma média entre 20 e 40 litros por vaca por dia, isso é plausível. É difícil, é duro. Mas se isso não for verdade, ou tu não és produtor de leite, ou tu não tens vaca”, afirmou. Ele comparou sistemas de alta produção com condução em velocidade extrema. “O vizinho pode ter 52 de média. Parabéns. Mas isso é um carro a 120 quilômetros por hora. Se furar o pneu, tu vais para o mato. Para a maioria, 25, 30 litros é o carro a 60 quilômetros por hora. Ele anda, ele não quebra”, avaliou.

Tang concluiu reforçando que o foco deve ser equilíbrio produtivo, sanidade e longevidade do rebanho. “A vaca que dá um pouco menos de leite, mas se mantém saudável, reprodutiva e com casco bom, dá mais lucro do que aquela de 60 litros que vive no limite”, finalizou.

Fonte: Agptea

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