Paraná mobiliza setor produtivo e autoridades para avançar na erradicação da brucelose bovina

Sistema FAEP lidera articulação entre entidades, pesquisadores e órgãos públicos para construir plano de ação estadual; meta é ampliar vacinação, fortalecer vigilância sanitária e reduzir os impactos econômicos e de saúde pública da doença

A erradicação da brucelose bovina voltou ao centro das discussões da cadeia pecuária paranaense. Após o sucesso obtido pelo Estado na luta contra a febre aftosa, representantes do setor produtivo, instituições de pesquisa e órgãos de defesa sanitária decidiram unir esforços para enfrentar um novo desafio: eliminar uma das principais enfermidades que ainda afetam a pecuária brasileira.

A mobilização ganhou força durante reunião realizada no último dia 2 de junho, promovida pelo Sistema FAEP, que reuniu integrantes das comissões técnicas de bovinocultura de corte e de leite da entidade, além de representantes de associações de produtores, órgãos de fiscalização e especialistas em saúde animal. Como resultado do encontro, ficou definida a reativação imediata do comitê estadual voltado ao combate da brucelose, que terá a missão de elaborar estratégias efetivas para reduzir a incidência da doença no Paraná.

Para o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, o momento exige ação coordenada e comprometimento de todos os elos da cadeia produtiva.

“Vencemos a batalha contra a febre aftosa. Agora temos como desafio essa nova missão, erradicar a brucelose. Precisamos, urgentemente, avançar”, destacou.

Segundo Meneguette, a entidade está preparada para colaborar com os órgãos oficiais, oferecendo apoio institucional e mobilizando produtores para ampliar as ações de prevenção e controle.

Educação sanitária e ações permanentes

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Ronei Volpi, consultor do Sistema FAEP e coordenador-geral da Aliança Láctea Sul Brasileira convoca a todos para a ação: “precisamos sair da inércia

O consultor do Sistema FAEP e coordenador-geral da Aliança Láctea Sul Brasileira, Ronei Volpi (foto), reforçou que o combate à doença exige uma estratégia contínua e abrangente, envolvendo produtores, técnicos e autoridades sanitárias.

“Precisamos sair da inércia para erradicar, de vez, a brucelose. Entre outras medidas, precisamos manter uma campanha contínua de educação sanitária e de saúde pública. O Sistema FAEP dá todo o suporte para que a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) possa executar essa e outras medidas necessárias”, afirmou.

A expectativa é que o grupo apresente um plano de ação estruturado até o final de junho, reunindo propostas voltadas à prevenção, monitoramento e redução dos focos da doença em todo o território estadual.

Atualmente, Santa Catarina é o único Estado brasileiro reconhecido como livre da brucelose, condição que serve de referência para os demais estados que buscam avançar no controle sanitário dos rebanhos.

Doença afeta produção e saúde pública

A brucelose é uma enfermidade infecciosa causada por bactérias do gênero Brucella, que acomete principalmente bovinos, mas também pode ser transmitida aos seres humanos. Nos rebanhos, provoca abortos, redução da fertilidade, queda na produção de leite e prejuízos econômicos significativos para os produtores.

Já em humanos, a doença pode causar febre persistente, dores musculares, fadiga e outras complicações, caracterizando-se como uma importante zoonose. Por isso, seu controle é considerado uma questão não apenas de defesa agropecuária, mas também de saúde pública.

Números mostram tamanho do desafio

Dados da Divisão de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose Bovina da Adapar revelam que o Paraná possui atualmente cerca de 155,7 mil propriedades com criação de bovinos. Apesar da dimensão e importância do setor pecuário estadual, apenas 124 propriedades contam com certificação de livres de brucelose e tuberculose.

Os números mais recentes também acendem um sinal de alerta. Em 2025, foram registrados 102 focos e 266 casos confirmados de brucelose no Estado. Apenas nos quatro primeiros meses de 2026, outros 45 focos já haviam sido identificados.

Outro indicador que preocupa é a cobertura vacinal. Em 2025, o índice de vacinação de bezerras alcançou 70,1%, percentual inferior à média nacional, que foi de 76,3%.

Diante desse cenário, a meta estabelecida para 2026 é elevar a cobertura vacinal para pelo menos 80% dos animais. O Paraná, inclusive, foi pioneiro no país ao tornar obrigatória a vacinação contra a doença.

Paraná possui avanços, mas busca modernização

O diretor-presidente da Adapar, Otamir Cesar Martins, destacou que o Estado já desenvolve iniciativas consideradas referência nacional no combate à enfermidade.

Entre elas está o trabalho conduzido pelo Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), responsável pelo desenvolvimento de antígenos utilizados em diagnósticos da doença, contribuindo para o abastecimento em todo o país.

Apesar dos avanços, Martins alerta para novos desafios relacionados ao trânsito animal.

“Inclusive, temos o laboratório da Tecpar desenvolvendo um antígeno para fornecer a todo o país. Porém, seguimos preocupados, em especial com o gado de corte, pelas fronteiras que voltaram a abrir a animais de outras unidades federativas. As mais críticas são Mato Grosso e Mato Grosso do Sul”, explicou.

Segundo ele, além do fortalecimento das ações sanitárias, é necessário tornar os processos mais modernos e menos burocráticos para garantir maior eficiência no controle da doença.

Programa nacional precisa evoluir

Durante o encontro, representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) também destacaram a importância de aprimorar as políticas de combate à enfermidade.

Maria Goretti Borcath, representante da Superintendência Federal de Agricultura no Paraná, lembrou que o Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose Animal (PNCEBT) acumulou importantes conquistas ao longo de seus 25 anos de existência.

“Em 25 anos de Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e da Tuberculose Animal, muitas foram as conquistas. Mas reconhecemos que existem pontos que podem ser melhorados”, ressaltou.

Vacinação é fundamental, mas não suficiente

Para a professora de Defesa Sanitária Animal e Epidemiologia Veterinária da Universidade Federal de Lavras, Elaine Maria Seles Dorneles, a vacinação permanece sendo uma ferramenta essencial, mas não pode ser a única estratégia utilizada para alcançar a erradicação.

Segundo a pesquisadora, cada Estado deve analisar suas particularidades, identificando regiões com menor cobertura vacinal e maior incidência da doença para direcionar ações mais eficientes.

“Pensar apenas na vacinação não é suficiente para alcançar a erradicação. É preciso ter outras ferramentas que venham ajudar”, afirmou.

Ela defende a modernização da legislação que rege o PNCEBT e a implementação de sistemas de vigilância ativa e estratégica capazes de detectar rapidamente novos focos da doença.

Outro ponto destacado pela especialista é a necessidade de garantir o fornecimento regular de vacinas para os produtores.

“O desabastecimento e a distribuição irregular comprometem, inclusive, a confiança do produtor no programa”, alertou.

União do setor será decisiva

A ampla participação de instituições públicas, cooperativas, entidades representativas e universidades demonstra o consenso de que o combate à brucelose depende de uma atuação integrada.

Participaram da reunião representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária, Adapar, Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul (Codesul Paraná), Ocepar, Sindileite, Associação Paranaense de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (APCRH), além de pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e Universidade Federal de Lavras (UFLA).

Com a reativação do comitê estadual e a construção de um plano de ação conjunto, o Paraná busca dar um novo passo na defesa sanitária animal, fortalecendo a competitividade da pecuária, protegendo a saúde pública e criando as condições necessárias para, no futuro, alcançar o mesmo status sanitário já conquistado por Santa Catarina: o de território livre da brucelose.

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