Importações de lácteos no Brasil: como Mercosul e acordo com a UE pressionam o produtor de leite

importações de lácteos no Brasil

A pressão externa que está moldando o mercado do leite brasileiro

O setor leiteiro brasileiro vive um momento desafiador. Após anos de competição intensa entre produtores locais e produtos importados, 2025 fechou com sinais claros de que a balança comercial de lácteos continua sendo fator crítico para a saúde econômica da cadeia produtiva.

Dados mostram que, mesmo com uma retração de 6,1% nas importações de lácteos em 2025 em relação a 2024, o Brasil ainda recebeu cerca de 2,15 bilhões de litros equivalentes em produtos lácteos importados — o que representou aproximadamente 8% do consumo interno total no ano.

Esse volume, mesmo menor que o recorde de anos anteriores, ainda é considerado “elevado” por analistas do setor e dificulta a recomposição de preços pagos ao produtor no mercado interno.

 

O que os números revelam no campo

A pressão sobre os preços pagos aos produtores, tem múltiplas causas, mas a entrada de produtos estrangeiros — especialmente de Argentina e Uruguai — tem sido um dos principais vetores de desequilíbrio no mercado lácteo brasileiro nos últimos anos.

Leite em pó aparece como o principal item importado, respondendo por mais de 70% dos volumes comprados pelo Brasil em determinados meses.
• Em períodos de maior fluxo, os volumes importados tiveram crescimento mensal de até 21,1% e 8% em setembro e outubro de 2025, respectivamente.

Esses números trazem uma disputa direta com o mercado doméstico, sobretudo em momentos em que a produção formal brasileira cresce, como indicam dados parciais do IBGE, que mostraram aumentos em captação e produção ao longo de 2025.

 

Impactos na cadeia produtiva

A presença ampliada de lácteos importados gera uma série de efeitos na cadeia leiteira:

1. Pressão sobre preços internos

Com oferta maior de produtos importados, especialmente em categorias como leite em pó e derivados, os preços ficam comprimidos — dificultando que indústrias repassem valores mais justos ao produtor.

2. Margens industriais assimétricas

Enquanto a produção doméstica enfrenta custos crescentes de alimentação, energia e frete, produtos importados nem sempre enfrentam as mesmas barreiras competitivas, criando assimetria no mercado.

3. Desafio de política comercial

Além da dinâmica de mercado, o governo brasileiro reinstalou em 2025 uma investigação antidumping sobre leite em pó importado de Argentina e Uruguai, alvo de queixas de setores produtivos que alegam práticas desleais de preço.

Medidas antidumping podem resultar na aplicação de tarifas adicionais temporárias — uma forma de proteger a indústria nacional enquanto a investigação avança.

 

Uma década de importações acima da média histórica?

Comparações com séries históricas apontam que as importações de leite e derivados pelo Brasil têm permanecido em níveis acima da média observada antes de 2023, em especial quando se considera o período anterior a 2019 e 2020.

Embora em 2025 tenha havido ajustes — com quedas comparativas em alguns meses — a magnitude dos volumes importados ainda está próxima dos patamares mais altos da série histórica recente.

 

O papel do Acordo Mercosul-UE

Outro elemento importante para o futuro da cadeia leiteira brasileira é o Acordo de Associação Mercosul-União Europeia, assinado em 17 de janeiro de 2026 e ainda dependente de ratificação pelos parlamentos dos países envolvidos.

O tratado prevê, entre outros pontos:
• redução tarifária gradual em produtos agrícolas;
• cotas para diversos itens, incluindo lácteos;
• mecanismos de cooperação e facilitação comercial.

Embora o acordo abra oportunidades para exportações brasileiras em outras cadeias agrícolas, ele também aumenta o receio de que importações de produtos europeus (inclusive lácteos) ganhem espaço no mercado interno, o que poderia pressionar ainda mais os preços pagos ao produtor local — especialmente se fatores estruturais de competitividade interna não forem resolvidos.

 

Competitividade interna: o nó da questão

Especialistas e lideranças do setor apontam que o problema não é apenas quantidade importada, mas a capacidade interna de competir em preço e escala com produtos estrangeiros — que em muitos casos contam com subsídios ou custos mais baixos de produção no país de origem.

Sem políticas que equilibrem as condições de concorrência, ou medidas de suporte à cadeia produtiva brasileira, esse cenário tende a se perpetuar.

 

Caminhos para o Brasil

O setor produtivo tem defendido medidas que incluam:
Adoção de mecanismos antidumping quando houver indícios de competição desleal;
Políticas que estimulem maior agregação de valor dentro do país;
Incentivos à exportação para gerar equilíbrio na balança comercial;
Ações estruturais para redução de custos de produção e melhoria de logística.

 

Conclusão

O mercado brasileiro de leite vive um momento de transição e tensão, impulsionado por fluxos externos de produtos lácteos, dinâmica competitiva complexa e políticas comerciais em evolução. Embora 2025 tenha apresentado sinais de ajuste, os volumes ainda permanecem em níveis que desafiam a sustentação de preços justos para o produtor nacional.

Entender e acompanhar essas tendências é essencial para qualquer produtor, indústria ou cooperativa que busca não apenas sobreviver, mas prosperar em um mercado cada vez mais globalizado.

 

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